• Matheus Mans

Eleanor Coppola decepciona na direção de 'Paris pode Esperar'


Não tem mais jeito. A família Coppola foi totalmente contaminada pelo vírus do cinema: Francis, o pai, é um dos diretores mais conceituados de sua geração após O Poderoso Chefão e Apocalypse Now; a filha, Sofia, encantou com o cult Encontros e Desencontros e acaba de ganhar prêmio em Cannes; outros dois filhos produzem grandes filmes e o sobrinho.... Bem, o sobrinho Nicolas Cage continua fazendo seus filmes, seja lá o que for. E agora, um novo membro desta família começa a se arriscar ainda mais no cinema: Eleanor Coppola, a mãe.

Apesar de já ter desenvolvido trabalhos nos bastidores, Paris pode Esperar é o primeiro trabalho de direção da matriarca, que acaba de completar 81 anos. No entanto, apesar de toda expectativa que rondava a chegada de Eleanor no comando de um filme, o seu longa-metragem inaugural é decepcionante do começo ao fim. Mesmo contando com belíssimos planos do interior da França, de momentos divertidos e um olhar fotográfico afiado, Paris pode Esperar é maçante e sem uma história que interligue todos os acontecimentos.

A trama é sobre Anne (Diane Lane), a esposa de um produtor de cinema (Alec Baldwin, em rápida participação) que decide ir direto à Paris ao invés de seguir com o marido para Budapeste. Para a viagem, ela acaba ganhando a companhia do sócio de seu marido (Arnaud Viard), um francês que ama viajar sem destino e conversar ao redor de uma mesa, apreciando queijos, vinhos e outras boas comidas.

Esta seria uma boa premissa, se não fosse a história inteira. Outros filmes já funcionaram com a ideia de uma viagem sem fim por belas paisagens e cidades bucólicas, como Viajar é Preciso e o clássico Diários de Motocicleta. Mas estes longa-metragem tinham histórias. A viagem por cenas bucólicas era apenas a suas premissas. Assim como qualquer road movie, as personagens têm transformações durante o trajeto, deixando a trama interessante e com reviravoltas ao longo de sua execução.

Paris Pode Esperar é um road movie às avessas, no pior sentido da expressão. Ao longo dos seus mais de 90 minutos de projeção, nada acontece. Há uma clara tensão sexual no ar entre o francês e Anne, mas não há desenvolvimento de personagens e muitas situações, por conta do roteiro fraco da própria Eleanor, não tem função narrativa. Uma cena, de vários minutos, passa-se em um museu. Anne tira algumas fotos, o francês reencontra uma antiga amiga, o segurança do local briga por causa das fotos e... Nada acontece. Não há desdobramentos, não possui cenas que influenciam a história. São mais de 10 minutos sem nexo, sem intenção e sem um sentido.

Além disso, apesar de contar com uma boa atuação de Viard, a personagem Jacques, o sócio de Baldwin, é insuportável. Só fala de comida e não consegue desenvolver um único assunto, tendo apenas Anne como sua interlocutora.Não é bem desenvolvido, não tem aprofundamento e tem o risco de ser uma das personagens mais chatas do cinema recente. Em vários momentos, há as sugestões de que ele pode ser um estelionatário, um aproveitador, um malandro. Mas todas os sentimentos do público não são confirmados.

Diane Lane, apesar talentosa (só vê-la em Sob o Sol de Toscana), não possui material necessário para trabalhar a sua personagem,tornando-se unidimensional e com situações toscas como a do museu e uma, no começo da película, que ela sofre de uma dor de ouvido que não convence ninguém.

O final ainda tenta causar surpresa,mas só enterra ainda mais o filme numa trama vazia e sem algum significado.Assim, Paris pode Esperar só se salva por conta da fotografia e das locações usadas, e do esforço dos atores. Mas nada recompensa a expectativa em torno do longa. Afinal, esperavam um novo Encontros e Despedidas ou um novo sucesso para marcar a família, assim como O Poderoso Chefão. Infelizmente, porém, o filme está mais para Nicolas Cage do que para Coppola. Uma pena.