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  • Matheus Mans

'Animal Político' testa experimentalismo no cinema nacional


Uma vaca tem tudo que deseja em sua vida. Vai à academia, frequenta os salões de cabeleireiros e tem amigos e familiares dedicados. No entanto, ela não está feliz: em uma forte crise existencial, a vaca decide ir para o deserto refletir, pensar sobre a vida e, principalmente, encontrar um sentido para a sua existência. Apesar de estranha, esta é a premissa do filme Animal Político, uma rara e inteligente peça experimental do cinema brasileiro, que desafia o seu espectador e mostra que as mais interessantes produções estão vindo do nordeste brasileiro.

Dirigido pelo pernambucano Tião, dos ótimos Muro e Sem Coração, o filme começa com toques de surpresa e até com um certo humor nas suas entrelinhas. A vaca em questão, já apresentada no começo deste texto, é tratada como um humano e o narrador, com uma voz mansa e tranquila, dá voz ao animal. Com isso,nós conseguimos penetrar na mente do quadrúpede e refletir sobre todas questões que a atormentam. É uma apresentação linear, mas que permite ao espectador fazer a mesma reflexão para si: sou feliz com tudo que tenho? Ter uma casa confortável me basta? Faço aquilo que desejo? Sou o que quero?

Assim, com toda a estranheza e absurdo da situação, o diretor Tião coloca a sociedade em cheque e com um roteiro afiado e uma direção precisa -- mesmo que sem muitos trabalhos com câmera e planos. Afinal, ela não é uma vaca apenas por ser. Ele é o "patinho feio" de sua vizinhança, do meio familiar, dos amigos. É quem não se encaixa com o ambiente e que acha tudo superficial, mesmo tendo tudo ao seu redor. Por isso, a busca pelas respostas no deserto. Lá, o ambiente é vazio, sem distrações. É onde ela pode encontrar a solução "divina e espiritual" para as suas aflições e a sua dor.

“Pensar no que é a vaca é questão social. A gente é uma coisa só e pode, ao mesmo tempo, ser tão separado. Queria falar de uma entidade humana. Torná-la mais ambígua”, disse o cineasta Tião à revista Carta Capital, em Tiradentes, quando apresentou seu filme. “Toda a trajetória da vaca é do ponto de vista dela. A gente tira o personagem médio-burguês e leva para a proposta de trajetória, de sair do seu núcleo, do seu conforto."

E o filme, quando começa a entrar num ritmo mais sonolento, insere novos elementos narrativos, como encontros pelo caminho, com referência à Stanley Kubrick e Douglas Adams, e, até mesmo, uma história dentro da história. Nesta última, Tião brinca com as diferenças: enquanto a vaca sai de seu lar de propósito, encontramos, na micro-história, uma garota -- chamada, ironicamente, de Pequena Caucasiana -- que se perde de seus pais e vive sozinha em uma ilha deserta, tendo que comer as joias que lhe sobraram. Apesar de estranha e aparentemente deslocada, esta inserção aprofunda ainda mais a reflexão e mostra uma forte razão de ser ao criar uma dicotomia com a vaca.

No entanto, o filme ganha ares ainda mais ousados e complexos quando a vaca passar por uma transformação completa ao final de sua empreitada e começa a enxergar o mundo com outros e mais astutos olhos (o motivo para essa transformação, aliás, é hilário). A partir daí, o jogo social, político e filosófico na trama fica mais intenso, sobrepondo algumas outras questões e cuidados técnicos despertados anteriormente. E a vaca, que tanto despertava curiosidade, é substituída e deixada de lado. O filme ganha em teoria, mas perde em execução.

Por isso, não é errado falar que Animal Político é uma ótima reflexão. Irônica, afiada e muito bem elaborada. Como filme, peca apenas pelo final, por ser deixado de lado a linguagem visual para a reflexão filosófica mais intensa. No entanto, Tião não perde seus méritos como diretor: ele ousou para mostrar que no Brasil há experimentalismo e cinema ousado, crítico e irônico. Além, é claro, de mostrar que o coração do cinema nacional está se deslocando cada vez mais ao Recife. E é um movimento que, para mim, não tem mais volta.