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  • Matheus Mans

Crítica: 'Rasga Coração' é filme político sem ser militante ou irracional


Há muito filme político sendo feito no Brasil. Afinal, vive-se um momento conturbado e complexo. É preciso colocar o debate no centro das atenções e escancará-lo nas telonas para fazer pensar, refletir, escutar, observar. Mas há muito cinema militante sendo feito nesse ínterim. Isso não é ruim, claro. Mas acaba afastando uma certa parcela do público que, de alguma maneira, precisava ouvir aquela mensagem. Jorge Furtado, dos ótimos O Mercado de Notícias e Saneamento Básico, trata de política de uma maneira rara em seu novo filme, Rasga Coração: com afeto e carinho pelo tema, pondo a militância nas entrelinhas para discutir as diferenças entre gerações.

A trama de seu novo longa-metragem acompanha a história de Manguari Pistolão (Marco Ricca, sempre excepcional) em duas linhas temporais. Na principal ele é um pai de família, casado com Nena (Drica Moraes), e que tem preocupação que qualquer outro trabalhador brasileiro tem. A diferença aqui é a relação dele com o filho Luca (Chay Suede), um rapaz que quer viver a vida no limite sem preocupação com estudos, futuro ou emprego. Na outra linha temporal, Pistolão (vivido agora por João Pedro Zappa) ainda é jovem e com um brilho no olhar quando fala sobre seu futuro. Só que sua preocupação aqui não é com contas a pagar ou com a alimentação do filho. Ele é um revolucionário tentando pôr um fim na Ditadura Militar com o amigo Lorde Bundinha (George Sauma).

A trama, assim, costura presente e passado pra falar sobre formas de fazer política -- e como essas atitudes vão se transformando conforme as pessoas envelhecem. É um olhar extremamente original e criativo por parte de Furtado, que adapta uma peça do genial Oduvaldo Vianna Filho escrita há quase cinquenta anos. É incrível como ela soa extremamente atual nas telonas, ainda mais por Furtado ter mantido o texto de Vianinha em sua totalidade -- das 122 cenas, só uma foi criada pelo cineasta e roteirista. É uma história atual, que faz sentido para qualquer pessoa que esteja assistindo, em qualquer espectro político que esteja o espectador. Certamente, há alguma identificação ali.

Para isso, há alguns pontos a serem ressaltados além da ótima história. Primeiro o elenco. Ricca (Canastra Suja) tem se mostrado um ator cada vez mais completo, mais interessante. Faz um pai de família duro, mas que quer se integrar à vida do filho de alguma maneira. Tudo isso baseado em pequenos gestos, atitudes, olhares, palavras. É um trabalho incrível. Drica (O Banquete) está mais exagerada, mais solta, mas constrói uma personagem absolutamente cativante e crível. É lindo ver o casal em cena. Chay Suede (também de O Banquete) mostra um grande avanço em cena, assim como a apaixonante Duda Meneghetti. O único que passa do ponto é George Sauma (Tim Maia), que não põe o freio em seu exagerado personagem Bundinha. Cansa e exagera demais.

Outro ponto a se destacar é a direção discreta de Furtado. Como sempre, ele não faz planos mirabolantes ou sequências de tirar o fôlego -- ainda que tenha um plano sequência incrível com mais de dois minutos. Ele valoriza os atores e a história a ser contada, além de dar enfoque para alguns simbolismos. É a mancha de sangue que fica marcada na calçada, mesmo após a limpeza do corpo que ali foi morto; é a conversa de pai e filho; é o discurso de Ricca ao final; a despedida do filho que segue em frente enquanto o pai continua preocupado com o emprego na repartição e esperando a promoção que não vem. Na trama de Furtado, a história e os atores tomam conta.

O único porém dessa protagonismo narrativo é uma certa enrolação perto do final, quando algumas coisas parecem andar em círculo e a personagem de Luísa Arraes não consegue acrescentar muita coisa após uma boa cena numa escola. O filme se torna um pouco cansativo e trama parece andar em zigue-zague, sem saber para onde ir.

Assim, o melhor de Rasga Coração é o ineditismo dessa história, a atualidade de suas atitudes e consequências. É um filme político sem bater na porta da irracionalidade ou da militância a qualquer custo. Faz cinema, faz política. Faz pensar e refletir. É um filme necessário para uma época tão nebulosa, que deve fazer com que gerações e pessoas de todos os espectros políticos pensem sobre suas atitudes e sobre a legitimidade das ações de seus filhos, netos, sobrinhos. Afinal, como já disse Belchior, "minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais". A luta continua. Só muda a geração.

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