• Matheus Mans

Crítica: 'Liberdade é uma Grande Palavra' versa sobre liberdade


Após 13 anos em Guantánamo, um palestino vai ao Uruguai em busca de uma nova vida. Assim, durante dois anos, ele tem direito a uma casa e a uma ajuda financeira do governo para se restabelecer. Ele se casa com uma uruguaia, tem filhos, estuda espanhol e tenta conseguir trabalho enquanto lida com a resistência dos empregadores, a burocracia local e as lembranças de tortura e humilhação no período do cárcere.

Esse é o fio condutor de Liberdade é uma Grande Palavra, documentário uruguaio que chega ao Brasil nesta quinta, 5, em circuito extremamente reduzido. Dirigido por Guillermo Rocamora (do ótimo Solo), o longa-metragem se vale da história desse homem palestino para ir além. A vida dele é usada, conscientemente, para criar fortes paralelos entre a vida de outros refugiados e pessoas que se refugiam em si mesmas.

Afinal, mais do que pegar a câmera na mão e sair acompanhando o protagonista, Rocamora cria uma narrativa em camadas. Primeiro, se conhece aspectos burocráticos e cotidianos da vida de Muhammad Abdallah, assim como o relacionamento com a sua esposa. Depois é que o diretor vai construindo a história que o levou até ali e, principalmente, os aspectos de sua vida que se projetam a partir dali, no Uruguai.

Rocamora não se furta em colocar momentos desconfortáveis na tela, quando a esposa e o protagonista enfrentam preconceito por conta da língua, dos costumes, da religião, da vestimenta. São momentos poderosos que ajudam a entender o drama de Muhammad, que continua a se sentir um prisioneiro em seu próprio mundo -- apesar de não ter mais os excessos e as barbaridades que vivia em Guantánamo, na mão dos EUA.

Vale ressaltar, também, a boa edição do documentário. Mais do que ir passo a passo, com cuidado na temporalidade, Rocamora segue uma cadência própria na história. Algumas coisas avançam rápido e meses se passam entre uma cena e outra -- algo que é raro de se ver em documentários. Ajuda a dar dimensão das dificuldades na vida de Muhammad e, principalmente, na demora de restabelecer uma rotina completa no País.

O que se constrói, assim, é uma narrativa que parte do protagonista e ganha vida própria. Há excessos e uma falta de ritmo no segundo ato, tirando um pouco da força da história. Mas a originalidade de Rocamora e a força do relato do protagonista, que dá voz para tantos outros presos políticos por aí, elevam o filme a um debate político avançado. É interessante analisar a vida dele e, assim, perceber o mar de injustiças que vivemos.

#Crítica #Documentário #Cinema