• Matheus Mans

Resenha: Em 'Até o Fim', Harlan Coben politiza trama policial


'Até o Fim' traz novo projeto gráfico para Harlan Coben / Foto: Matheus Mans

Apesar da excelente qualidade de sua narrativa, o escritor norte-americano Harlan Coben é daqueles que preferem se manter longe de grandes polêmicas. Seus livros, principalmente os da série Myron Bolitar, trafegam em ambiente seguro e jogam o jogo convencional dos livros policiais tradicionais. Mas, felizmente, não é esse o caminho que segue o seu novo Até o Fim.


Lançado recentemente no Brasil pela Arqueiro, já com o novo projeto editorial dos livros de Coben, Até o Fim acompanha a jornada de Nap, um investigador da polícia que ainda não aceitou a morte de seu irmão há 15 anos. E ele cai de cabeça novamente nessa história quando um colega é assassinado e antigos mistérios voltam à tona. Será que foi acidente ou assassinato?


A partir disso, o escritor norte-americano versa sobre abuso do governo, tortura, justiça com as próprias mãos e até o famoso "tribunal da internet" -- com pessoas sendo expostas e tragédias se sucedendo a partir disso. Lógico: novamente, Coben se vale de uma narrativa tradicional com policial, mistérios, mocinhos, um culpado, coisas do tipo. Mas ousa muito mais durante a trama.


Afinal, essa jornada repleta de momentos politizados e polêmicos é o que norteia Nap. Decisões do protagonista, que parece um Myron Bolitar um pouco modificado, o tornam mais real e falível.

Não sou a primeira pessoa a perder um irmão prematuramente. Nem a primeira a perder um gêmeo. Sua morte, Léo, foi uma catástrofe. Quanto a isso não há dúvida. Mas também não foi o fim do mundo. Consegui me reerguer.

Dessa forma, com um protagonista humanizado e um Harlan Coben mais antenado com o mundo que se desenrola ao seu redor, fica mais fácil de embarcar na história e a se embrenhar no mistério. É, como sempre, um daqueles livros gostosos de ler, que fluem numa única sentada, sem grandes abalos. É um livro "liso", como já falamos por aqui. Flui sem gargalos.


Um recurso interessante de Coben também chama a atenção na narrativa. Ao contrário de ser um narrador-observador, o norte-americano coloca a trama do livro sob tutela do próprio protagonista. Assim, em alguns momentos, fica divertido ver as coisas sob o ponto de vista de Nap. As falas direcionadas ao irmão, como se o livro fosse uma carta, é uma boa sacada.


No entanto, apesar dessa ousadia de Coben na história, pouco cresce na narrativa -- pelo contrário, a trama é tão fraca quanto A Promessa e os livros da saga Mickey Bolitar. O mistério é resolvido rapidamente pelo leitor, que não precisa pensar muito para chegar no nome do criminoso. Algumas questões levantadas não são resolvidas, tendo um final com pontas soltas.


Definitivamente, isso não é algo que um leitor de tramas policiais quer. Por mais que o livro tenha essa narrativa gostosa e os tradicionais e reconfortantes tiques de Coben, fica esse gosto amargo no final de que mais coisas poderiam ter sido resolvidas. Mas, ainda assim, ponto a mais pela ousadia do americano que, finalmente, usou a sua literatura para falar sobre o hoje.