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  • Matheus Mans

‘Sombrio’ é bom livro policial, mas inferior ao primeiro da série


Diferente da conterrânea Agatha Christie, o inglês Luke Delaney não é afeito às histórias de crimes convencionais que contam com um inspetor certinho e audacioso e crimes que se revelam por meio de pequenas pistas ao longo da história. O escritor, que começou as suas tramas de investigação com Brutal, mudou essa lógica e apostou num detetive incorreto e em histórias sombrias.

O resultado deu certo. Brutal foi sucesso de público e crítica, conquistando um pequena, mas aficionada legião de fãs. Agora, ele amplia as histórias do detetive Sean Corrigan com Sombrio, livro que conta a história de uma investigação que tenta elucidar o sumiço de duas mulheres estranhamente parecidas e com algumas características físicas extremamente semelhantes.

Corrigan, junto com Sally, precisará usar os seus métodos pouco habituais para ter mais clareza sobre o que está investigando -- principalmente com a habilidade de “entrar” na mente do criminoso, que aqui é amplificada. Enquanto isso, ele ainda precisará lidar com os seus problemas pessoais e, principalmente, entender a presença de uma psiquiatra forense na delegacia.

No segundo livro da série de Sean Corrigan, Delaney mostra estar mais solto e muito mais confortável na condução da trama. Os personagens já estão com características muito bem definidas e a história flui com mais naturalidade. Grande problema em Brutal, a obviedade acerca da resolução do crime também é substituída por capítulos que se passam na cabeça do criminoso. É o ponto alto do livro.

Os crimes, aliás, estão um pouco menos interessantes -- afinal, ao invés de um assassinato frio e brutal, agora vemos sequências de sequestro. Ainda assim, porém, não derrubam o interesse do livro, que consegue se manter pelas descrições detalhadas e cruas sobre o tratamento dado às sequestradas. Sem dúvida, Delaney não tem medo de causar reações adversas.

O que faz com que Sombrio esteja um degrau abaixo de Brutal, então, é a construção de um personagem central: Sean Corrigan. Está claro que Delaney quer ir na contramão dos livros policiais e fazer do detetive uma espécie de anti-herói. No entanto, aqui, ele exagerou ainda mais na mão: Sean está insuportável, machista e mais grosseiro do que na história anterior.

Em alguns momentos, tive vontade de largar a leitura e partir para o próximo livro -- coisa que faço pouquíssimas vezes. Afinal, o comportamento de Sean ultrapassa os limites do aceitável e incomoda. Ele se acha inteligente demais, poderoso demais. As passagens que mostram ele “entrando” na cabeça do criminoso também estão um tanto quanto artificiais e sem vida.

Espero, de verdade, que seja revelado algum motivo para isso acontecer. Não dá pra continuar assim.

Ainda assim, não se engane achando que o livro é ruim. Pelo contrário. Se você conseguir passar essas barreiras, Sombrio se revela como uma boa leitura policial, com interessante história de investigação e com um ambiente opressor que salta dos livros. Falta, apenas, que Delaney encontre o tom ideal para contar suas tramas. Espero que isso acontece ainda no próximo livro.

Sem dúvidas, se Delaney se encontrar, será uma série policial para ninguém botar defeito.