Nicholas Sparks se distancia de romance com 'Dois a Dois'

26/04/2017

É difícil ter um estigma caminhando ao seu lado por toda a sua carreira. Assim como Paulo Coelho é taxado de ruim e James Patterson é considerado um escritor industrial, o americano Nicholas Sparks é reconhecido apenas como escritor de romances para adolescentes. Dono de obras como Diário de uma paixão e Querido John, ele arrancou suspiros de gerações e se tornou ícone do estilo literário.

 

Agora, Sparks acaba de lançar o livro Dois a Dois, história sobre um pai que precisa cuidar de sua filha após a mãe arrumar um emprego e se distanciar da família. É, em essência, um forte drama familiar sobre dor, sofrimento, paternidade e, principalmente, sobre o difícil ato de se redescobrir junto com a filha — história que ressoa um pouco, aliás, com Os Descendentes e À Procura da Felicidade.

 

Antes de tudo, o livro é um marco para Sparks que se prova como um escritor plural. Apesar de ter uma trama de romance, ela é paralela à história principal e mostra ser ainda menos significante com o passar das páginas. Afinal, o foco da história é a paternidade e nada mais. Em entrevista que fiz com Sparks para O Estado de S. Paulo, ele afirma ser um contador de histórias familiares.

 

“Dramas familiares sempre fizeram parte dos meus romances”, conta o escritor ao jornal. “É fácil pensar sobre os meus livros como sendo apenas histórias de amor, mas é muito mais do que isso. Minhas histórias são mais do que romances, e tem sido muito mais do que isso ao longo de toda a minha carreira. Para mim, é natural escrever sobre um drama familiar.”

Quanto ao conteúdo, Sparks não erra. Apesar de alguns clichês ao longo da história, como a trama da mãe e a história amorosa do pai, ela surpreende pela história cheia de altos e baixos e, principalmente, pela coragem de lidar friamente com os seus personagens — ele não tem medo de dar finais duros e nem medo de distanciar personagens que pareciam carismáticos até certo ponto.

 

Além disso, a relação do pai com a filha é bem explorada e construída. Talvez por ser pai de cinco crianças, Sparks soube retratar a relação de maneira real e emocionante. Nas páginas, é possível sentir a força entre a família e que emociona com certa facilidade quem é pai e, em alguns momentos, até quem não é. “A trama central é a ideia de que as pessoas não são feitas para percorrer caminhos sozinhas”, conta o autor ao Estado. “O mundo é mais fácil ao ter alguém do seu lado.”

 

O único pecado de Sparks é a insistência na relação entre o pai e sua antiga namorada que ressurge em sua vida. Apesar de ter momentos interessantes, a relação dos dois parece ter sido colocada no livro apenas para chamar a atenção de fãs dos clássicos do autor, como Um Amor para Recordar e A Escolha. Dois a Dois não é uma história açucarada e, por isso, colocar um romance tórrido se mostra deslocado.

 

Por fim, a essência do livro é apenas a paternidade. É este tema, tratado com toda a delicadeza e relevância necessárias, que faz com que Sparks tenha tido tão sucesso com Dois a Dois. É um livro que não vai agradar quem busca “alta literatura” ou quem tem preconceito com o autor. Afinal, estas pessoas vão torcer o nariz mesmo quando Sparks escrever uma obra-prima. No entanto, Dois a Dois com certeza vai agradar a qualquer um que dê uma chance para sua singela e importante história.

 

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