Você precisa assistir 'Feud', nova série de Ryan Murphy

10/05/2017

Muita gente talvez nem tenha ouvido falar da série Feud – e menos gente ainda deve ter assistido a algum filme de Bette Davis e Joan Crawford. E em alguns casos, lamentavelmente, nem sabem quem são as duas atrizes. Porém, sendo uma série da grife Ryan Murphy (Glee e American Horror Story), os olhares tornam-se mais atentos.

 

Tendo como pano de fundo às gravações do clássico O que aconteceu com Baby Jane (Dir: Robert Aldrich, 1962), a espinha dorsal de Feud é a rivalidade entre as duas das grandes atrizes da era de ouro do cinema hollywoodiano. Mas vai além: partindo dos bastidores de uma filmagem, a série traz um panorama da crueldade e das intrigas sob a qual a maior indústria cinematográfica do mundo levantou o seu letreiro.

 

Feud é, em seus oito episódios, um primor, a começar pela escalação de seus atores. Susan Sarandon (Bette Davis), Alfred Molina (Robert Aldrich), Catherine Zeta-Jones (Olivia De Havilland), Kathy Bates (Joan Blondell), Stanley Tucci (Jack Warner) e, tratando de uma série de Ryan Murphy, Jéssica Lange (Joan Crawford). Impecavelmente caracterizados, é espantosa a semelhança física entre os atores.

 

Porém, nem só de espelhos vivem as adaptações: nesse caso, preciso lembrar do quão explosivo é ver Sarandon de Bette Davis. Por mais esforços que Ryan Murphy tenha despendido em fazer Jéssica Lange brilhar, Susan a ofusca – tal qual Bette Davis fez com Crawford durante as filmagens de Baby Jane.

Primeiro, é preciso esclarecer que Jéssica é uma atriz fantástica, esquecida durante anos pela indústria e que conquistou uma nova legião de fãs após protagonizar as quatro primeiras temporadas de American Horror Story. E aí está a primeira crítica de Feud: a falta de papéis para atores e atrizes da terceira idade. A questão é que Jéssica é sempre Jéssica – e tem licença poética para isso – e Susan Sarandon bebeu toda a essência de irônica antipatia de Bette Davis.

 

Os oito episódios amarram bem o recorte do período de vida dos protagonistas: a rivalidade entre as atrizes, a submissão do diretor Aldrich ao patrão Jack Warner, o difícil relacionamento familiar que tanto Davis quanto Crawford sustentavam dentro de suas casas e, principalmente, os dramas pessoais de cada uma, intensificados pelo ostracismo sempre rondante. Um diálogos mais marcantes da série é sobre a insuficiência de ser quem se é, mesmo sendo o melhor: Bette Davis a mais prestigiada e Crawford a mais bela. Cabe lembrar que ambas as atrizes – o que vale para Susan e Jéssica também – foram vencedoras do Oscar de melhor atriz – Joan por Alma em Suplício (1945) e Bette por Perigosa (1936) e Jezebel (1939).

 

Ao lançar Feud, Ryan Murphy consolida seu estilo de séries com temporadas independentes, mesmo utilizando-se dos mesmo atores para papéis distintos. A fórmula do sucesso renderá neste ano a oitava temporada de American Horror Story, a segunda temporada de American Crime Story em 2018 e a promessa de novos episódios para Feud, dessa vez abordando o conflito da separação do príncipe Charles e da princesa Diana. As séries de Murphy também foram determinantes para a reinvenção do gênero – que no início dos anos 2000 costumava ter por volta de 23 episódios e atualmente resolvem-se entre 8 e 13.

Outro fator que valoriza as séries como produto é o relançamento da carreira de atores que não vivem atualmente o "efeito Jennifer Lawrence" ou "efeito Eddy Redmaine", emendando trabalhos seguidamente. Graças a séries, os mais jovens puderam conhecer o talento de atrizes como a própria Jéssica Lange, Kathy Bates e Kevin Spacey (House of Cards). O mais curioso dessa situação é o fato de como a turma de Hollywood desprezava os conteúdos televisivos, associando seus atores à decadência estelar - como mostrado em Feud.

 

Cada vez mais disperso, o espectador quer um entretenimento de qualidade, que seja surpreendente do início ao fim e resolva-se em poucos episódios. E se tiver uma abertura caprichada então:

Apesar da melancolia de algumas passagens, Feud tem uma carga humorística das mais refinadas, principalmente nas armações criadas por Joan e Bette. Aqui o riso não vem do escracho, mas da ardilosidade, cinismo e ironia com a qual uma tentava puxar o tapete da outra ou, não raro, uniam as rivais em prol de um benefício mútuo.

 

Outro ponto que merece destaque é a atuação de Judy Davis como a colunista Hedda Hooper. Hedda era capaz de erigir e destruir carreiras graças a influência e poder de sua caneta. A megera também foi retratada no excelente Trumbo – lista negra, de 2016. Numa época em que se perde tempo acreditando no conceito frágil da pós-verdade, analisar as ações de Hedda Hooper mostram que se a palavra MÍDIA fosse transformada em um acrônimo, o M certamente seria de manipulação.

 

Por fim, veja algumas comparações entre as atrizes originais e as dramatizações da série. Chega a ser assustador de tão impressionante:

 

Bette Davis no Andy Willians Show

Joan Crawford na cerimônia do Oscar em 1963 (contém spoilers)

 

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