'O caminho mais fácil não me atrai', diz a escritora Ana Paula Maia

06/06/2017

Escrita bruta, dura, cruel. Assim pode ser caracterizada a literatura da carioca Ana Paula Maia. Autora de livros como De Gados e Homens e Carvão Animal, aclamados por grande parte  da crítica, Maia construiu seu espaço no Brasil. Desde seu primeiro livro, O habitante das falhas subterrâneas, lançado em 2003, a escritora não parou de chocar com histórias nas profundezas do Brasil. Ela escancara aquilo que poucos querem ver e tira a poeira escondida debaixo do tapete.

 

Agora, com o livro Assim na Terra como Embaixo Da Terra, ela adiciona mais um capítulo em sua saga de revelar o cru da humanidade. Na história, uma colônia penal, construída para ser um modelo de detenção do qual preso nenhum fugiria, torna-se campo de extermínio . Espécie de capitão do mato, Melquíades é o algoz, caçando e matando presos como animais.  Os detentos,  enquanto isso, estão sempre planejando a fuga, sem saber se vão acabar mortos pelos guardas.

 

Assim, embalado por este lançamento, Esquina conversou com Ana Paula. Em pauta, a sua literatura, as suas visões de mundo e  a aproximação de temas sombrios, como a morte e o sofrimento. Abaixo, então, os melhores trechos da entrevista:

 

Esquina: Como surgiu seu interesse pela literatura? O que a despertou para a escrita?

Ana Paula Maia: Depois de alguns anos de leituras e filmes assistidos, comecei a escrever porque adoro contar histórias. Inventá-las, mais do que reproduzi-las. As possibilidades do fazer literário é praticamente inesgotável. Enquanto houver imaginação e criatividade, teremos sempre novas histórias ou histórias recriadas.

 

Como foi o começo? Foi difícil?

É difícil para todo escritor. Lidar com a insegurança nos primeiros textos, aprender a se lapidar, a exposição aos outros, ser criticado, etc, é sempre difícil. Aliás, lidar com criação de conteúdo, de histórias, é sempre desafiador. Nunca é fácil. Por isso, continua sendo difícil, ainda que haja outros aspectos já superados.

 

Grande parte de seus livros tem tramas e personagens que estão sempre próximos do cruel, da violência, de situações marginais. Qual o motivo da aproximação deste tipo de tema?

A profissão dos meus personagens é que é cruel, violenta e marginal. Daí, é impossível escrever sobre um bombeiro, sem ser violento, pois é uma profissão que requer sangue frio, habilidade e muita coragem. E eu digo coragem no sentido mais palpável possível. Em geral, abordo profissões que lidam com a morte. Não é um tema fácil. O caminho mais fácil não me atrai. A possibilidade de contar histórias de outros, cria-las, é fascinante.

 

Você abordou temas como abatedouros, crematórios, carvoarias. São lugares com um ambiente muito denso, muito complexo. Como escrever sobre isso? Quais os desafios de uma escrita sobre estes lugares?

Empatia com esses lugares. A morte é um dos temas mais abordados na literatura. Evidentemente em aspectos distintos, dependendo da visão e abordagem do autor. Eu escolhi um caminho para abordar essa questão tão desafiadora e cruel que é a morte. Ter um cenário desafiador sobre o qual escrever é um deleite.

 

Em “Assim na terra como embaixo da terra”, você fala sobre uma colônia penal prestes a ser desativada. Como foi o processo de escrita desse livro? Como entrar no ambiente de uma colônia penal?

 

Faz tempo que eu queria escrever sobre o espaço de confinamento de condenados. Antes desse livro, escrevi De gados e homens, que também se passa num espaço de confinamento, porém, bovino. Agora, é um confinamento só de homens e assim, poder questionar um pouco o sistema prisional a partir de uma ótica mais alegórica. Essa colônia penal pode ser lida até mesmo como o confinamento em que vivemos no nosso condomínio, bairro ou país. Do alto, visto lá de cima, devemos parecer todos gados confinados aos olhos do Criador.

 

Como é ser escritora no Brasil?

A literatura vive um período de muita vitalidade. Muitas publicações, muitas feiras literárias, muita troca cultural e intelectual. Há sim um interesse em literatura e na figura do autor. É uma profissão que exige disciplina e foco, mas qual não exige, não é mesmo?

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