Crítica: 'Um Instante de Amor' se perde na tentativa de ser ousado

01/07/2017

Uma das atrizes mais unânimes da atualidade, a francesa Marion Cotillard sempre faz tipos com características emocionais fortes. Depressão em Dois Dias, Uma Noite e em Piaf -- Um Hino ao Amor; sofrimento em Ferrugem e Osso e em A Imigrante; personalidade forte em Macbeth. Agora, chega aos cinemas o filme Um Instante de Amor que coloca Cotillard como uma personagem luxuriosa, carnal e, mesmo que contraditório, extremamente inocente de tudo o que ocorre ao seu redor.

 

Dirigido pela argelina Nicole Garcia (Um Belo Domingo), o longa-metragem acompanha a vida de Gabrielle (Cotillard), uma mulher solitária que não sabe lidar com os seus impulsos sexuais. Preocupada, a mãe de Gabrielle, então, arma um casamento com o pedreiro José (Alex Brendemühl), que é realizado a contragosto da jovem. Durante o matrimônio, porém, Gabrielle sofre um aborto e é levada para tratamento em uma clínica, com ares de spa, durante algumas semanas.

 

Neste período, porém, a vida dela sofre uma grande reviravolta. Ela conhece um jovem tenente (Louis Garrel, de Os Sonhadores) à beira da morte e se apaixona perdidamente, se esquecendo completamente da vida que levava com José. Seu objetivo é conquistar o tal soldado, que começa a virar uma obsessão com o passar do tempo. Antes contrária à ideia de ir para a clínica, Gabrielle não quer mais sair dali. Para ela, o local  se torna muito mais interessante do que sua própria casa.

 

A história, além de escapar de qualquer outro papel de Cotillard, também é um ponto fora da curva da diretora Nicole Garcia, acostumada a dramas familiares. Em Um Instante de Amor, então, ela enfrenta alguns problemas estruturais na abordagem da trama e de sua personagem principal. O primeiro ato, no qual conhecemos Gabrielle, há situações que não acrescentam em nada à história, mesmo tendo uma força interpretativa muito grande. Falta cuidado.

 

Além disso, até a chegada de Gabrielle à clínica, não é criado nenhum vínculo com as suas personagens e Cotillard parece até mesmo um pouco perdida em cena -- coisa que não se via desde Assassin’s Creed. Falta aproveitar mais a personagem e desenvolvê-la em cenas com sua família, com seu marido e com a vizinhança. Afinal, há um desespero contínuo para mostrar o lado luxuriante de Gabrielle, sem preocupação de acrescentar camadas à personagem.

 

No entanto, Nicole se exime de parte de seus erros a partir da chegada de Gabrielle à clínica. Ali, a diretora ganha foco e força narrativa, construindo uma personagem coesa e que forma um vínculo com os espectadores. Cotillard também encontra o fio interpretativo que a guia até o final da projeção, dando força narrativa quando uma primeira reviravolta na história chega por meio do roteiro corajoso de Garcia. Mudanças na trama são inseridas a toda hora, sem medo de errar ou perder o espectador.

 

O grande ponto alto, porém, está nas sequências finais envolvendo Gabrielle e seu marido, José. A história choca o espectador, que não esperava aquele final -- que é impactante, ainda que tenha alguns problemas de coesão se o espectador parar para pensar um pouco mais. É um encerramento angustiante para o filme, que com certeza ficará martelando na cabeça de quem o assistir por algumas horas e, quiçá, alguns dias. É o efeito esperado de roteiros corajosos.

 

Ainda assim, por mais contraditório que seja isso, Um Instante de Amor é esquecível. Você vai pensar nele por alguns dias, mas depois vai se perder. Não é o melhor trabalho de Cotillard, ainda que ela se entregue no decorrer da trama. Garrel também passa em branco por uma personagem que apenas ensaia aprofundamento. E a diretora Nicole Garcia mostra que entende mais de dramas familiares do que de conflitos interiores. Uma pena. Tinha potencial para ser um marco na carreira de Cotillard e de Garcia. Mas, no final, se tornou apenas um ponto fora da curva.

 

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