41ª Mostra: 'É retrocesso', diz Ai Weiwei sobre censura à arte no Brasil

20/10/2017

Ai Weiwei tem gestos calmos, olhar contemplativo e fala pontuada, cheia de reentrâncias e simbolismos. Cada frase se torna uma sentença sem escapatórias e que provoca arrepios de acordo com seu teor. E durante entrevista realizada na última quinta-feira, 19, o cineasta, artista plástico, designer e ativista político chinês falou de tudo um pouco: desde o seu filme Human Flow, que abre a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, assim como a situação da arte no Brasil.

 

“Há quem, por princípios religiosos, tente restringir nossa liberdade”, afirma Weiwei, ao ser questionado se sabia de movimentos de direita no País que censuraram a apresentação de um artista nu no Museu de Artes Modernas e a exposição Queermuseu em Porto Alegre. “Perder liberdade de expressão é um sinal perigoso de que estamos andando pra trás. O primeiro passo, no retrocesso, é sempre calar a arte. É a ameaça de surgimento de tempos piores.”

 

Weiwei, afinal, tem conhecimento de causa. Nascido na China, ele viu seu pai ser levado à um campo de trabalho forçado. O motivo? “Ele era um poeta”, conta o artista plástico, que já foi detido pelo governo chinês após “praticar atos de subversão”. Agora, radicado em Berlim e com um grande estúdio de cinema na cidade alemã, o cineasta tenta dar vozes ao que são calados. Tenta encontrar um significado -- ainda que inexistente -- no caos que se aloja no mundo.

 

O seu mais novo longa-metragem, o documentário Human Flow, é um pouco disso tudo. Em mais de duas horas de projeção, Weiwei mostra a situação de refugiados espalhados em todo o mundo -- principalmente sírios, afegãos e iraquianos, mas também com atenção aos paquistaneses, aos moradores da faixa de Gaza e até mesmo aos mexicanos que correm risco de vida para tentar entrar em terras norte-americanas. São pessoas fugindo do caos para tentar encontrar ordem.

"São mais de 900 horas de filmagem e mais de 300 entrevistas realizadas ao longo dos últimos anos”, conta Weiwei, que começou a trabalhar e a pensar no filme quando ainda estava preso na China. “As imagens que fizemos são chocantes, assim como o tratamento que a União Europeia está dando às pessoas que buscam refúgio em seus países. É um material extenso e que ainda pretendo usar em novas plataformas, seja em livros ou em um site.”

 

De fato, ver Human Flow não é um exercício fácil. Como numa colcha de retalhos, Weiwei coloca o espectador para viajar por fronteiras em todo o mundo. Vemos pessoas que não se encontram mais em suas identidades e que buscam um espaço no mundo para continuar a viver. Apesar de alguns excessos e da ausência de um fio narrativo ao documentário, todo o conjunto de imagens se configura de maneira extremamente violenta, cruel, assustadora. É o mundo sem filtros do Instagram.

 

“Eu tinha extrema curiosidade de saber o que acontece no mundo hoje, um mundo em que 44 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas”, explica Weiwei sobre o teor de Human Flow. “Ao mesmo tempo que pode ser inspirador, é deprimente viver em um mundo em que os valores são violados. E as instituições, os governos e os políticos não estão nem aí pra isso. Eu, como chinês, vivi muito essa situação e sinto que as coisas estão piorando cada vez mais.”

 

Weiwei, apesar de negativo quanto ao sentimento do mundo e quanto aos últimos marcos na política global, ainda tem fé num quesito: a humanidade. “O mundo está indo por um caminho muito ruim, mas ainda tenho esperança no poder individual, na humanidade”, diz o ativista e artista plástico. Ele mesmo, aliás, se considera vítima dessa nova ordem mundial. “Mesmo sendo mais privilegiado, sou um desterrado, não falo alemão e não posso voltar ao meu País. Sim, me sinto um pouco refugiado.”

 

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