A fixação do rock de Léo Jaime e Leoni

28/07/2018

Antes de se juntarem no palco com banda e tudo, Léo Jaime e Leoni testaram uma antiga afinidade quando fizeram a música Fórmula do Amor, sucesso do Kid Abelha nos anos 1980. Depois, veio a realização do projeto Fotografia. Mas ali não havia banda. Ali, eles tocavam seus violões, e  em dado momento, o palco era alternado entre eles, uma espécie de dois shows em um. “Antes éramos só nós dois no palco, com nossos violões e as canções nuas. Agora somos uma banda que tem dois cantores. É outra proposta e levamos os arranjos originais, Leoni no baixo, coisa que ele não fazia há décadas”, explica o cantor, ator, apresentador, cronista e redator Léo Jaime por e-mail ao Esquina (veja entrevista completa no final da matéria).

Léo Jaime e Leoni começaram em conjuntos. Léo em João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, enquanto Leoni iniciou com Kid Abelha e os Abóboras Selvagens e depois entrou nos Heróis da Resistência. Mas ambos tinham ambições artísticas maiores, e seguiram em carreiras solos.

Nesses mais de 35 anos de carreira, ambos continuaram compondo, em grande parte, falando de relacionamentos e desencontros. Nas canções de Léo, há uma dose de irreverência e brincadeira, enquanto nas de Leoni a atmosfera é mais densa e sombria. São cantores que marcaram o pop rock com suas composições como: Fixação, Garotos I e II, Como Eu Quero, Exagerado, Só pro Meu Prazer, A Vida Não Presta, O Pobre, As Sete Vampiras, Rock Estrela, etc. E juntos fizeram Fórmula do Amor, que agora ganha uma atualização em Fórmula do Amor II, para celebrar esse novo projeto juntos, Leoni & Leonardo. “Lançamos a Fórmula do Amor II, quando estreamos o show. Mesmos autores, mesmo tema, algumas décadas depois. Lá a gente dá a visão atual. Ouça” brinca Léo Jaime.

Na entrevista de Léo Jaime que segue abaixo, ele fala sobre esse novo projeto ao lado de Leoni, das outras atividades que faz junto com a música, como atuar e escrever, de como driblou a gordofobia e que ainda não sabe em quem vai voltar para presidente. “Mas vai ser contra o neonazismo”, sinaliza.

Esquina da Cultura: Em 1988, você participativa da novela 'Bebê a Bordo', e dez anos depois fez o show Fotografia ao lado de Leoni. Esses caminhos entre atuação e projetos com outros artistas ditaram sua carreira, iniciada no conjunto João Penca e os Miquinhos Amestrados. Por quê?

Léo Jayme: Por que a interação com outros artistas? Ninguém é uma ilha, diria o grande autor. Sempre gostei muito de trabalhos em grupo, de compartilhar, embora tenha feito bastante coisas sozinho e com sucesso. Sempre gostei do “jogo”, que é o “play” em inglês, que serve tanto para tocar quanto para atuar. Já o ato de escrever pode ser mais solitário, mas não tem que ser.

Esquina: Falando em atuação, você fez novelas, cinema e teatro. De onde surgiu essa necessidade de atuar junto com sua carreira de cantor, que você nunca abandonou?

L.J.: Comecei, na adolescência, fazendo as duas coisas e segui fazendo. Claro que o grande público me conheceu por causa da música, mas a atuação, o interesse pelo teatro, e também pela literatura e jornalismo, já eram anteriores ao sucesso.

Esquina: De que maneira aquela experiência com Leoni no show 'Fotografia', em 1998, desaguou nesse novo show Leoni & Leonardo, agora com uma banda de suporte?

L.J.: Antes éramos só nós dois no palco, com nossos violões e as canções nuas. Agora somos uma banda que tem dois cantores. É outra proposta e levamos os arranjos originais, Leoni no baixo, coisa que ele não fazia há décadas. É a graça de estar numa banda, compartilhar o palco, o protagonismo, a responsa, as decisões. É, sobretudo, uma celebração à parceria, a amizade e a união.

Esquina: Além de atuar, compor, cantar, você é cronista e escreve para televisão e é apresentador. Por que tantas atividades. De que maneira elas ajudam na sua carreira de cantor e compositor?

L.J.: São duas coisas: escrever e interpretar. Os veículos mudam, as técnicas mudam, mas o impulso criativo é o mesmo. Lá atrás diziam que eu não tinha foco. Hoje percebem que meu troço sempre foi mais aberto. Uma coisa nunca contradisse a outra.

Esquina: Você fez poucos discos, por quê? Qual você considera o melhor da sua carreira?

L.J.: A indústria do disco e eu nunca apostamos no mesmo cavalo. Melhores discos? Sessão da Tarde, pelo efeito que causou na época. Todo Amor, pela qualidade das interpretações.

Esquina: Numa as suas inúmeras participações no Cassino do Chacrinha, você canta sem camisa, exalando sensualidade, quando ainda era magro. Vendo essas imagens de quando você era magro, isso afeta sua autoestima hoje. Como lidou com a obesidade e o preconceito em torno dela?

L.J.: Eu era jovem, não tirei a roupa, foram Chacrinha e Russo [assistente de palco do programa] que tiraram. Lidei como deu com o preconceito, a gordofobia, etc. Sempre associam engordar a estar decadente. Não conheço quem esteja ficando cada vez mais jovem e não avalio envelhecer como decadência. Acho que existe uma grande opressão já há algum tempo quanto à necessidade de ter um corpo atlético e um grande capital sexual, que seria a aprovação das massas. Este é um mecanismo de opressão. Porém estou na ativa, recebo muito carinho do público e constantemente recebo convites para bons trabalhos. Minha autoestima é oriunda disso e não de julgamentos superficiais.

Esquina: Como você hoje enxerga o pop rock dos anos 1980? Por que o rock brasileiro perdeu espaço na indústria fonográfica para gêneros mais populares, como o pagode, o sertanejo e hoje o funk?

L.J.: Meu repertório e o de boa parte da minha geração esta inscrito no repertório da MPB e continua tocando em rádios, lotando shows, etc. Cada tempo tem sua moda e o Brasil é, por tradição, ligado a monocultura. Agora é isso, depois é aquilo, etc. A ideia de que a multiplicidade é boa parece não ter amadurecido ainda.

Esquina: A juventude dos anos 1980 se formou escutando o pop rock brasileiro que trazia, em parte das bandas e dos cantores, contestação, existencialismo e crítica política e social. O Brasil de lá pra cá não melhorou muito em relação a nossa dívida social e nossa politicagem, mas os jovens atuais não têm mais músicas e cantores que contestam esse estado de coisas. Como você analisa isso?

L.J.: É preciso conhecer muito o que anda sendo feito por aí. Não tenho esta cultura toda pra poder afirmar que isto não esta sendo feito, embora seja claro que não está sendo mostrado. Tem muita gente fazendo muita coisa boa. Falta visibilidade e acesso. Também sinto falta de ver o nosso cancioneiro retratar nossa atualidade. Lancei a pouco uma canção chamada Acredite em Mim, tratando de fakenews. Não teve uma repercussão grande,mas está feita e é atual.

Esquina: Em ano de eleições para presidente, você já tem um candidato? O que acha das opções que nós temos para presidente da República?

L.J.: Acho que esta uma eleição complicada. Não tenho ainda em quem vou votar. Mas vai ser contra o neonazismo.

Esquina: Você já encontrou a sua “fórmula do amor”?

L.J.: Lançamos a Fórmula do Amor II, quando estreamos o show [parceria dele com Leoni, repetindo a parceria da primeira música Fórmula do Amor] Mesmos autores, mesmo tema, algumas décadas depois. Lá a gente dá a visão atual. Ouça (risos).

SERVIÇO:
Local: Tom Brasil
Rua Bragança Paulista, 1281 – Chácara Santo Antônio
Data: 28/7. Horário: 22h
Ingresso: R$ 170 a R$ 90 

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