Análise: Oscar tenta ser pop, mas efeito é prejudicial para premiação

11/01/2019

Algumas pessoas não são engraçadas. É algo natural delas e não adianta insistir. E quando essas pessoas forçam e tentam ser engraçadas a qualquer custo, sem pensar nas consequências, o resultado geralmente é desconfortável. Ninguém ri, o silêncio impera e é criado o temido "climão". Enquanto isso, o Oscar, a principal premiação do cinema mundial, não é pop. Não adianta. O prêmio concedido pela Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood tem um viés mais dramático, independente, cult. O pop, o blockbuster, infelizmente não é regra ali. Grande bilheteria parece até ponto negativo.

 

Nos últimos tempos, porém, o Oscar está tentando ser popular a qualquer custo, sem medir as consequências. E o resultado já está se tornando parecido com a pessoa que tenta ser engraçada a qualquer custo. É o tiozão do pavê. O pop está sendo enfiado goela abaixo, de maneira totalmente forçada, sem tentar modificar a cultura do prêmio ou de seus votantes, que continuam sendo majoritariamente brancos, americanos e heterossexuais. A ordem ali são dramas independentes, padrões, que ornam com tudo que foi premiado até então. Mudar isso do nada, sem cuidado, é tentar tirar um elefante da sala sem fazer barulho. Não vai adiantar nada e todo mundo ali vai se constranger.

 

A primeira medida do Oscar para a guinada pop surgiu num tuíte, no ano passado, quando a Academia disse que iria criar uma nova categoria na premiação, a partir de 2020, para premiar filmes populares. Mas o quer seria isso? Filmes de grande bilheteria? Os filmes com maior bilheteria? Quem determinaria isso? E a categoria de melhor filme viraria o que? Só de filmes independentes? E se um filme independente fizer muito dinheiro, ele concorre nos dois prêmios? Não faz sentido nenhum -- e já falamos muito sobre isso aqui em outro artigo, ressaltando os caminhos do Oscar.

 

Mas agora desembocamos na premiação de 2019, que é a mais estranha e artificial dos últimos tempos. O hype popular tomou conta. Ainda que os filmes não tenham sido formalmente indicados, já dá pra ter uma ideia do que virá pela frente. Pantera Negra deverá integrar o time de filmes que concorrem na categoria principal. Um Lugar Silencioso também corre por fora. Nas outras categorias, o que chama a atenção é a presença de Lady Gaga, que apresentou uma atuação apenas mediana no drama Nasce Uma Estrela. O Oscar, depois de anos rígidos nas indicações, está cedendo ao hype.

 

E nada contra as indicações desses filmes. Só que tem um porém: saiu a informação de que a Academia está tentando, desesperadamente, reunir todos os astros de Vingadores: Guerra Infinita no palco da premiação. De novo, indicação de que o prêmio está caminhando para um lugar mais pop. Só que aí está a contradição que mostra como a popularização é forçada: pra que tanto esforço pra reunir todos atores do blockbuster da Marvel se nem há possibilidades do filme ser indicado? Se eles o consideram tão importantes a ponto de reunir todos, será que não deveria indicar?

 

É contraditório. Indicam filmes com muito hype popular, esquecem de prezar pela qualidade, enquanto tentam levar celebridades de filmes blockbuster para agradar a audiência. É uma bagunça. O Oscar, este ano, está levemente perdido -- e pode ficar muito perdido com mais alguns erros pelo caminho. É, voltando à comparação inicial, a pessoa que tenta ser engraçada a qualquer custo e não sai da piada do pavê. Levam filmes pop, mas que não possuem a qualidade esperada -- Nasce uma Estrela, sério? Bohemian Rhapsody? Falta coerência e união nessa guinada. É artificial.

 

O Oscar precisa, desesperadamente, repensar sua estratégia. Quer se popular? Ótimo, SEJA popular. Não finja ser, não compreenda o hype como merecimento técnico. Isso, de alguma maneira, acaba turvando os principais objetivos da premiação e, sem dúvidas, vão abrir espaço para muitas polêmicas. Aguarde e verá. Mesmo com o #OscarSoWhite e #MeToo com menos intensidade neste ano, o caos deverá estar instalado. Será um ano de divisor de águas para a Academia. Se mantiverem o pop forçado, problemático. Se voltarem atrás, vão ter que repensar a audiência. Mas se prestarem atenção no que estão fazendo e trazerem o pop de forma natural, será um novo momento no cinema mundial. E, sem dúvidas, será muito divertido de assistir.

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