'Bazar dos Sonhos Ruins' traz pílulas de genialidade de Stephen King

02/04/2018

Já disse dezenas de vezes que acho Stephen King um gênio. Ele consegue transitar entre diferentes gêneros de histórias sem perder a vivacidade  de sua escrita,  seja em dramas lacrimosos (À Espera de Um Milagre), um verdadeiro horror (O Iluminado) ou histórias de criaturas (Christine). E melhor: King também não perde a sua vivacidade literária mesmo com pequenos fragmentos. Seus contos, geralmente, são inteligentes, vívidos e, na maior parte das vezes, aterrorizantes.

 

A coletânea O Bazar dos Sonhos Ruins é o ótimo exemplo disso.  Reeditado há pouco pela Suma, o livro reúne vinte contos de King, que variam em diversos gêneros, formatos e até tamanho. Mas o melhor de tudo, é que o autor conta, antes de cada uma das histórias, sua inspiração para o que está escrito. É maravilhoso saber dessas histórias antes, como uma conversa com King, pois ajuda na imersão da trama e a entender como aquela história foi construída.

 

O primeiro conto já é um acerto em cheio: Milha 81 é Stephen King puro. Com ares de seu romance Christine e de Buick 8, a historieta mostra o ataque de um carro assassino à um grupo de pessoas. Há uma espetacular criação de personagens e o desenrolar da história tira o fôlego. Os contos que se seguem também são ótimos: Premium Harmony sobre um casal com problemas - com um desfecho incrível -- e Batman e Robin tem uma discussão, que é lindo.

 

King volta a apresentar um livro impecável,  porém,  com os sensacionais Duna e Garotinho Malvado. Ambos são King como estamos acostumados:  no primeiro,  um evento misterioso numa ilha ganha contornos sádicos e tem uma reviravolta final genial.  É de cair o queixo. É  Garotinho Malvado, porém, que chamou completamente minha atenção: King consegue criar um personagem assustador com punhados de características e diálogos. Dá medo e é muito fascinante.

Depois desse quinteto de grandes contos, porém,  infelizmente,  o livro começa a decair um pouco: Uma MorteIgreja de Ossos -- que é um poema sem rimas -- e Vida após a Morte são contos apenas medianos. Os mais fracos, porém, são os contos em sequência Ur Herman Wouk ainda está vivo. O primeiro é, por mais que King faça malabarismos na hora de falar o contexto, um conto pago pra Amazon. E, realmente, não é o forte de King. O outro é baseado numa notícia. Infelizmente, se perde no caminho.

 

Só que Stephen King não deixa o livro morrer e volta de maneira genial com o Indisposta, o segundo melhor do livro da minha opinião  -- apenas atrás de Garotinho Malvado. Como ele diz no contexto da história, é um conto no qual o leitor está um passo à frente, mas isso não atrapalha. O interessante, neste caso específico, é entender todos os meandros psicológicos do personagem principal.

 

Depois o livro entrega mais um punhado de contos medianos para depois voltar com tudo: os quatro últimos são excepcionais, com destaque para Aquele ônibus é outro mundo e o terror psicológico Obituários. Ambos contam com elementos perturbadores e deixam quem o lê em choque com o desenrolar. É inteligente, é bem dosado e faz o que é necessário: põe um fim ao livro numa nota alta, encerrando O Bazar dos Sonhos Ruins como mais um grande livro de King. Livraço.

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