'Bugchaser - Coração Purpurinado' é teatro sem medo de feridas

09/11/2017

 Falar do incompreensível sem didatismo é quase impossível. Bugchaser – coração purpurinado consegue a façanha. Homossexualidade, sexo sem camisinha (o chamado bareback) e contaminação intencional de DSTs são os fios de uma narrativa que se aprofunda em questões como o abandono, a solidão, o higienismo e as neuroses às quais nos submetemos deliberadamente.

 

A trama pode soar absurda, mas contém forte carga de realidade que fundamenta a história: um advogado criminalista, Mark, narra de uma clínica de quarentena sua experiência como bugchaser, pessoa soronegativa que intencionalmente quer se contaminar com o vírus HIV. O ato se dá numa São Paulo – ou Brasil? – do futuro, distópica e higienista que moderniza a concepção de sanatório, mas não foge da essência de reclusão e expulsão do que não se enquadra na ordem social da normatização dos corpos Foucaultiana.

 

Não é uma fácil digestão para os públicos distintos que faço questão de dividir em dois: os entendidos e os alheios. Bugchaser fala para convertidos, mas não deixa perdido o espectador que não é da comunidade gay – o folder distribuído antes do espetáculo funciona como um glossário para termos e gírias restritas, caso do próprio nome da peça, bareback, carimbo e vitamina. O tema não é novidade: em 2015 foram veiculadas matérias sobre a prática criminosa de infectar propositalmente – o chamado carimbo.

 

Ao tocar espinhos sem medo do corte, a soma da direção inovadora de Davi Reis com o texto de Ricardo Correa – que segura o quase monólogo na unha – mostra a flor do embrutecimento humano de quem já nasce com a marca da culpa. Aliás, Mark é a marca, a representação de um gado que já nasce pro abate cotidiano na infância, na família, no trabalho. A dramaturgia inovadora se constrói numa perspectiva de complementaridade com os elementos tecnológicos e cenário para criar uma compreensão transversal na construção de sentidos. O isolamento do corpo gay torna-se um diálogo constante da relação humana com a tecnologia, utilizando referências que vão do computador HAL de 2001: uma odisseia no espaço a episódios de Black Mirror. É a recordação que o fazer teatral não é campo para o medo, mas lugar construção de pensamento e implosão de preconceitos

 

Ao rediscutir a historiografia sobre a AIDS e os homossexuais, Bugchaser se propõe a combater os ecos da desinformação que soam até os dias de hoje – mesmo passados mais de trinta anos desde a primeira reportagem sobre o tema no Brasil, datada de 1983 pelo jornalista Hélio Costa. Ponto marcante é a constatação de Mark quando compara o sexo sem proteção para heterossexuais e gays: para os primeiros a única surpresa seria uma gravidez indesejada; para os segundos, a possibilidade única de tornar-se a proveta de um vírus que não escolhe condição nem papel sexual.

 

Bugchaser – coração purpurinado é um conjunto de gritos: socorro por parte de uma população perseguida; alerta para aqueles que ainda vivem sob a máscara de um encantamento de ignorância; aviso, para autoridades e entidades adormecidas. É também uma mão estendida: para os que não se compreendem, não se aceitam, não se encontram.

Informações

 

Quando: 04 de outubro a 30 de novembro – quartas e quintas às 21h.

Onde: Teatro do Núcleo Experimental - Rua Barra Funda, 637.

Duração: 60 minutos.

Capacidade: 65 lugares. 

Quanto: R$ 40 | www.compreingressos.com.br 

Classificação etária: 16 anos. 

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