Chico Buarque está vivo! 'Caravanas' é moderno e relevante para o País

06/09/2017

Muitos dizem que Chico Buarque não faz nada de bom desde o longínquo 1982, logo após lançar Almanaque e o divertido Saltimbancos Trapalhões. Quem diz isso é quem não ouviu seu mais recente álbum, o ótimo Caravanas. É um disco, claro, que não se equipara com clássicos do carioca, como Construção e Meu Caro Amigo. Ainda assim, é um disco de real importância social e que permite gritar aos cinco ventos que Chico Buarque está mais vivo do que nunca.

 

Primeiro, vamos tirar o elefante do texto: Cantiga é uma boa canção, a despeito das fortes e vorazes críticas que está recebendo. De fato, o músico não foi feliz com alguns versos que causam um certo desconforto -- para mulheres, o desconforto deve ser maior ainda. Por isso, prefiro fugir da polêmica. É uma música que as pessoas vão gostar ou desgostar pelo sentimento, não por sua técnica ou qualquer outra mensagem que quer passar. Deixo dois textos que podem falar melhor: AQUI e AQUI.

 

A segunda música é um blues simpático, moderninho, chamado Blues pra Bia. Se a pessoa já se decepcionou com Cantiga, com certeza não vai encontrar afago neste acústico sem muita inventividade. É uma música bonitinha e só. O mesmo vale para a terceira faixa do álbum, A Moça do Sonho. Já interpretada por Edu Lobo e Maria Bethânia, esta canção tem um apuro técnico maior e versos mais fortes, mas ainda assim não anima e deixa o disco na mesmice.

 

A coisa só ganha tônica com a deliciosa Jogo de Bola. Com ares de Feijoada Completa, a canção é um sambinha bom de ouvir e, ainda, conta com um refrão inteligente e que possui algumas sacadas de crítica política poética -- “Há que levar um drible/ Por entre as pernas sem perder a linha/ No jogo de bola há que aturar uma embaixadinha, deveras/ Como quem tira o chapéu para a mulher que lhe deu o fora”. Sem dúvidas, a música mais gostosa de todo Caravanas.

Massarandupió, enquanto isso, é uma composição de Chico Brown -- neto de Chico e, veja só, filho de Carlinhos Brown. Não é genial, mas tem ar de modernidade refrescante e que diverte na voz de Chico. O mesmo vale para Dueto, música da trilha de O Rei de Ramos, de Dias Gomes, que tem a neta Clara Buarque como parceira nas estrofes mais agudas e nos momentos mais divertidinhas, como quando os dois citam serviços virtuais, como Facebook, WhatsApp e Tinder.

 

Logo depois, Caravanas volta a apresentar uma seriedade maior, ainda sem crítica política ou social, com o bolero Casualmente e Desaforos. Cantada parcialmente em espanhol, a letra de Casualmente é forte, apesar de melosa em exagero. Já Desaforos tem melodia mais simples, mas uma letra interessante: “Alguém me disse/ Que tu não me queres/ E que até proferes desaforos pro meu lado/ Fico admirado por incomodar-te assim/ Jamais pensei/ Que pensasses em mim.”

 

O grande destaque para o novo álbum, porém, está guardado escondido na última faixa, quase como um presente para quem o escutou até ali. As Caravanas é Chico Buarque em essência. Com um forte tom político, a música cutuca o preconceito que rola nos bairros nobres do Rio de Janeiro contra pessoas mais simples e de outras etnias. Com influência de Edu Lobo, a melodia é forte e intensificada por violinos e contrabaixos. Ouso dizer que é uma nova Construção.

 

Uma nova Construção, aliás, não apenas por sua construção melódica. Apesar desta letra não rimar apenas entre paroxítonas e não ter outras invencionices, As Caravanas tem um significado mundial. Faz sentido para o preconceito do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Brasil. O paralelo com a escravidão arrepia. Além disso, faz sentido até mesmo para a Europa, que hoje vê a crise de refugiados se perpetuar, apesar de já estar em uma menor intensidade.

 

No final, apesar de tropeços no meio do caminho, a vontade ao final de Caravanas é de abrir a janela e gritar: Chico Buarque está vivo! E sim, este é o melhor e mais relevante álbum do carioca desde 1982. Mas não por não ter produzido nada mais de interessante neste longo período. Pelo contrário. Tem Paratodos e Carioca para provar o contrário. Ainda assim, como é bom ver Chico inspirado. Como é bom ver a música brasileira em tão bom tom. Como é bom ter Chico Buarque!

 

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