Cine Ceará abre o festival com forte tom político

03/09/2019

A marca dos festivais de cinema realizados este ano no País tem o DNA da resistência e do protesto contra o tratamento dado à cultura e, particularmente, à sétima arte por parte do Governo Federal. E a 29ª edição do Cine Ceará – Festival Ibero Americano de Cinema não vem sendo diferente. 

 

Na abertura, realizada na última sexta-feira, 30, no belo Cineteatro São Luiz – um prédio tombado pelo patrimônio histórico, que recebe as mostras competitivas de curtas e longas do Cine Ceará –, reverberou a insatisfação da classe artística, de políticos e do público que lotou o cinema com o descaso de Jair Bolsonaro com a cultura.

 

E tudo foi potencializado com a presença de dois ex-presidenciáveis das últimas eleições. Ciro Gomes, que já foi governador do Ceará, bastante aplaudido, e de Fernando Haddad, que fez a sala virar um grito único de “Lula Livre”.

 

Mas a noite estava reservada oficialmente para a abertura da 29ª edição do Cine Ceará, com uma esperada atração: a primeira exibição de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, e a homenagem ao diretor cearense. O filme de Karim venceu a mostra paralela mais importante de Cannes, Un Certain Regard, e será nosso representante para uma das cinco vagas ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

O diretor cearense recebeu o troféu das mãos de Fernanda Montenegro, que faz uma comovente participação em A Vida Invisível. Antes de entregar o troféu ao diretor, Montenegro fez questão de ler uma carta que recebeu do diretor há alguns anos, quando ele a convidou humildemente para participar do seu filme.

 

Karim recebeu o troféu bastante emocionado. No início do seu discurso, ele falou do protesto de alunos e professores da Universidade do Ceará (UFC) contra a nomeação do novo reitor da instituição por Jair Bolsonaro. Alunos e professores abriram uma enorme faixa no palco e aos gritos de “Não ao interventor”.

 

Depois de protestos, palmas, gritos, e muita emoção, o público silenciou para ver a história de Eurídice, uma das personagens centrais de A Vida Invisível, inspirado no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha.

 

Primeiras impressões de 'A Vida Invisível'

 

Em seu novo filme, assim como seus outros longas (Madame Satã, O Céu de Suely, Praia do Futuro, Abismo Prateado), Karim narra de forma bem particular a vida daqueles personagens, acuados pelos desejos, pela sociedade e preconceitos.

 

Na história de Eurídice (Carol Duarte, jovem, e Fernanda Montenegro, velha) e de sua irmã, Guida (Julia Stockler), numa Rio de Janeira dos anos 1950, o destino irá traçar caminhos tortuosos para elas, que vão transformá-las em definitivo. Enquanto Eurídice se casa, Guida engravida de um marinheiro e segue com ele para o Velho Continente.

 

Mas as coisas não saem como Guida esperava. Ela volta para casa dos pais próxima de dar a luz ao seu filho. O pai, um português rígido nos costumes e na criação das filhas, expulsa a filha de casa, que irá morar em cortiços e tentar sobreviver. Eurídice e Guida não se encontram mais, enganadas pelo pai.

Karim conta esse melodrama de maneira muito própria, sem emoções fáceis, sem uso de recursos, como a trilha sonora que geralmente é utilizada nesse gênero para extrair emoções nas cenas mais dramáticas.

 

É um filme lento, com seu tempo próprio para processar os descaminhos de suas personagens, com uma fotografia granulada que acentua um tempo passado, numa Rio de Janeiro que não existe mais, a não ser na memória da personagem Eurídice, agora velha, vivida pela Fernanda Montenegro.

 

Os temas propostos pelo diretor, como machismo, feminismo, preconceito de classe, racismo, etc, são tratados, assim como em outros dos seus filmes, de forma sóbria e sem pieguices.

 

É o filme que exige muito do seu espectador, que tem que atravessar à história daqueles personagens, em tons amarelados e tempos mortos, numa lentidão que por vezes pode afugentá-lo. Mas quem persiste na travessia, irá se deparar com uma linda história de amor e de memória, narrada de maneira segura e sóbria por um diretor em perfeito exercício técnico e emocional do seu ofício.

 

Mostra Competitiva de Longas Metragens

 

El viaje extraordinario de Celeste García / A viagem extraordinária de Celeste García. Dir. Arturo Infante. Ficção. 2018. 92min. CUBA.

 

Canción Sin Nombre / Canção sem nome. Dir. Melina León. Ficção. 2019. 97min. PERU.

Greta. Dir. Armando Praça. Ficção. 2019. 96min. BRASIL. 

 

Luciérnagas. Dir. Bani Khoshnoudi. Ficção. 2018. 85min. MÉXICO.

 

Notícias do fim do mundo. Dir. Rosemberg Cariry. Ficção. 2019. 70min. BRASIL.

 

Ressaca. Dir. Patrizia Landi e Vincent Rimbaux. Documentário. 2018. 86min. BRASIL.

 

Vozes da Floresta. Dir. Betse de Paula. Documentário. 2019. 95min. BRASIL. 

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