Crítica: 'A Luz no Fim do Mundo' é jornada paternal emocionante

15/10/2019

Um homem, numa barraca, está deitado ao lado de uma criança. Menino? Menina? No que depender do pai (Casey Affleck), sua filha (Anna Pniowsky) vai se passar como menino até onde for possível. Afinal, em A Luz no Fim do Mundo, a maioria das mulheres foi dizimada por conta de uma misteriosa peste. Só sobraram homens, em sua maioria, que passaram a tratar as mulheres restantes como escravas sexuais.

 

Por isso, a menina Rag vive nas sombras, numa vida dupla. Para desconhecidos, é um garotinho na pré-puberdade. Para o pai, é a única lembrança de uma vida passada com a mãe (Elisabeth Moss), já morta. Como manter a identidade? Como mantê-la a salvo, sem perturbações, sem riscos para a vida da menininha? É isso que norteia a trama que é dirigida, produzida, roteirizada e protagonizada por Affleck -- projeto de anos do ator.

 

A alegoria passeia por cenários pós-apocalípticos com uma naturalidade desconcertante. Mistura de Um Lugar Silencioso e Ao Cair da Noite, dois excelentes filmes, o longa-metragem traz uma história lenta, calma e bem distribuída ao longo de seus quase 120 minutos que chama a atenção do público para dentro desse ambiente depressivo e opressivo. A drama do pai e da menininha ultrapassa a barreira da tela.

Affleck (Manchester à Beira-Mar) está bem como sempre. Há uma estranheza em, justamente, ele falar sobre mulheres morrendo num apocalipse feminino -- afinal, para quem não sabe, ele foi acusado de abusar de uma mulher no set de filmagens de seu longa-metragem anterior, Eu Ainda Estou Aqui. Mas, no fundo, acaba parecendo um mea culpa, uma demonstração de que ele admite que errou e pede desculpas. A ver isso.
 

As tensões são bem construídas, a trama tem bons altos e baixos. Quando começa a ficar sonolento demais, um momento incerto injeta um ânimo extra. As coisas fluem.

 

Pniowsky (Ele Está Lá Fora) está excelente, num papel que exige maturidade surpreendente. Mas a personagem é mais chata do que deveria. Por mais que sejam criados laços com a menina, e uma preocupação inerente devido à sua situação, ela acaba produzindo um distanciamento natural. Há uma carga muito pesada em cima da menina. Faltam mais cenas dela sendo criança ou, até, pré-adolescente. Falta verdade.

 

Além disso, por fim, duas passagens não são tão bem explicadas. O personagem de Affleck, por exemplo, que age com exagerado pudor e cuidado nos primeiros 40 minutos de filme, passa a inexplicavelmente agir de maneira pouco inteligente a abrir brechas na segurança da menina. Não há uma passagem cuidadosa desse tipo de tratamento que evite o espectador ter uma reação de indignação. Afinal, por que raios ele age diferente?

 

Mas o fato é que A Luz no Fim do Mundo é um longa cuidadoso, poderoso, alegórico e inteligente. Depois do mediano e estranho mocumentário Eu Ainda Estou Aqui, o irmão mais novo dos Affleck se prova como ótimo diretor, que segue linhagem familiar -- está num patamar próximo do oscarizado Argo, de Ben Affleck. Filme pós-apocalíptico que vai além das tragédias. Fala, sobretudo, de humanidade. Algo necessário hoje em dia.

 

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