Crítica: 'A Menina e o Leão' é emocionante jornada de amadurecimento

07/05/2019

Aos 11 anos, Mia (Daniah De Villiers) se vê obrigada a deixar a Inglaterra e partir para a África do Sul. A adaptação é difícil e ela só quer voltar pra casa. Mas, quando conhece Charlie, um filhote de leão branco, tudo se altera. Ela recupera a alegria. Assim, depois de três anos de muita convivência com o felino, Charlie cresce e, segundo a opinião dos adultos, torna-se perigoso. Uma besta. Por isso, os pais de Mia optam por vendê-lo. Revoltada, ela percebe que apenas há uma solução: seguir viagem pela savana africana até encontrar um lugar onde o seu melhor amigo possa viver em liberdade e segurança.

 

Dirigido por Gilles de Maistre (Féroce) e roteirizado pela dupla Prune de Maistre e William Davies (de Pare! Senão Mamãe Atira e Como Treinar o Seu Dragão), A Menina e o Leão segue a velha fórmula da amizade incondicional entre humanos e animais -- como Cavalo de GuerraMarley & Eu Beethoven. Não há algo que fuja das regrinhas do subgênero. É um amor puro, que surge dessa relação sem segundas intenções, e que cativa a audiência de maneira quase imediata. Afinal, todo mundo consegue lembrar de um cachorro, gato, pássaro ou peixe que teve ao longo da vida. Emoção na certa.

 

No entanto, apesar de se ancorar nessa fórmula já batida, e quase clichê, A Menina e o Leão consegue arrancar alguns pontinhos a mais na sua execução. Antes de tudo, é impressionante a forma que a protagonista sul-africana Daniah De Villiers se relaciona com o leão. Ainda que seja uma atriz com limitações, o vínculo que ela cria com o felino resplandece na tela. Tudo por conta da estratégia do diretor, que optou por criar uma espécie de Boyhood e rodar o filme por alguns anos.  A relação  foi criada naturalmente entre Daniah e Charlie -- que, na verdade, se chama Thor. O Instagram dela impressiona.

Além disso, o filme possui uma mensagem suave, mas importantíssima, sobre a caça indiscriminada que acontece na África. Milionários americanos e europeus chegam ao País todos os anos e oferecem um bom punhado de dólar em troca desses animais. Os africanos, explorados desde tempos imemoriais, precisam de sustento. E vendem a criatura para ser morta e colocada na sala de estar dessas pessoas. É um tema tratado já de várias maneiras, como no forte e cruel Safári. Um tema necessário de se discutir.

 

Passados esses pontos, é preciso discutir algumas coisas técnicas de A Menina e o Leão. Gilles de Maistre é um cineasta de televisão e, por conta disso, seu filme acaba por ter uma linguagem pobre às vezes, ainda que a fotografia seja impressionante. O roteiro é pouco sutil e traz algumas mensagens carregadas. Algumas saídas são fáceis demais e algumas outras decisões são pouco explicadas. Os personagens dos pais de Mia (interpretados por Mélanie Laurent e Langley Kirkwood) possuem graves problemas ali.

 

A talentosa e belíssima Laurent (O Retorno do Herói) por conta do mal aproveitamento de sua personagem no roteiro, servindo apenas para mostrar preocupação com Charlie. Não se sabe nada além sobre ela. E Kirkwood (Dredd) por ser um péssimo ator. Não passa emoção alguma. Seu personagem é tão raso e pouco desenvolvido que a única coisa que causa, involuntariamente, é uma raiva inexplicável desde o primeiro minuto.

 

No entanto, apesar desses erros, A Menina e o Leão é uma emocionante jornada familiar, de autodescobrimento, e que acaba com uma mensagem importante e cada vez mais necessária -- ainda mais em tempos em que se discute a caça no Brasil. Os humanos não são donos dos animais. Apenas coexistimos num lugar que estamos de passagem. É preciso respeitar, e entender, essas outras criaturas que nos circundam. É o que Mia fez e que todo mundo deveria fazer. Que o filme sirva de lição por aí.

 

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