Crítica: 'A Outra Mulher' brinca com confusão entre fantasia e realidade

16/08/2018

Quem nunca teve uma paixão totalmente platônica e acabou gastando mais tempo naquela fantasia do que imaginava? É inevitável: a ideia do proibido, do inalcançável, sempre exerceu algum tipo de fascínio nas pessoas. E como o cinema imita a realidade, nada mais justo que do projetar isso na tela. A grande vantagem do cinema é poder distinguir fantasia de realidade de forma visual, e utilizar isso à seu favor. A nova comédia francesa Amoureux de ma femme, traduzida para A Outra Mulher, se inspira por completo nisso.

 

Em 84 minutos de filme, A Outra Mulher já inicia sua trama indo direto ao ponto: o reencontro inesperado de dois amigos, Daniel (Daniel Auteuil) e Patrick (Gérard Depardieu). Patrick menciona que precisa apresentar sua nova namorada à ele, e os dois então combinam um jantar. O elenco do novo filme francês é bastante enxuto, sendo focado somente nos dois casais. Daniel é casado com Isabelle (Sandrine Kiberlain), ainda que o matrimônio pareça estar ir mal. Ao mencionar que encontrou com Patrick, ela logo se irrita, pois foi ele quem abandonou sua amiga. O estereótipo de mulher rancorosa toma forma e é nisso que a comédia começa.

 

O relacionamento de Patrick com Emma (Adriana Ugarte) é o típico clichê do homem que se cansou de um relacionamento estável e encontrou, em uma mulher 20 anos mais jovem, a possibilidade de se aventurar novamente, independente do que isso signifique. O filme não revela como os dois se conheceram, então tanto Daniel quanto Isabelle ficam especulando. A escolha de fazer com que Isabelle pense que Emma é uma prostituta é um tanto infeliz, afinal, retoma uma briga feminina completamente desnecessária.

Daniel, no entanto, está deslumbrado com ela: imagina os dois fugindo juntos, tendo um romance proibido e toda a fantasia erótica de um homem de meia idade por uma mulher mais jovem. Analisando friamente, o tema do filme não deixa de ser sexista; no entanto, o diretor, que é também o protagonista, conseguiu misturar aspectos de humor e de uma paixão platônica para deixar o filme mais leve.

 

O grande recurso utilizado em A Outra Mulher é a confusão entre realidade e imaginação. Parece não haver distinção entre o que é o pensamento de Daniel e o que de fato está acontecendo, e a cada momento o espectador é posto em dúvida. No entanto, o próprio protagonista muitas vezes se confunde e acaba deixando escapar pensamentos inadequados. A forma de driblar isso, obviamente, é com humor. E funciona. Daniel parece realmente sentir um amor à primeira vista pela jovem, indo mais nessa direção do que no fetichismo propriamente dito.

 

A Outra Mulher é curto, mas consegue ter começo, meio e fim bastante bem definidos. Fique claro que é uma comédia francesa e arranca leves risos de quem o assiste. O jeito desengonçado de Auteuil se encaixou perfeitamente no papel, sendo mais fácil entender seu ponto de vista e suas motivações. De fato, o filme corre o risco de cair num estereótipo machista, e chega bem perto disso em alguns momentos; no entanto, o humor da paixão platônica faz com que o longa seja capaz de desviar muito bem dessa temática.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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