Crítica: 'A Vida em Família' tem muitos objetivos e pouca história

03/09/2018

O título em português não faz jus à história de A Vida em Família. Afinal, parece que é um drama familiar, introspectivo. Ou, ainda, pode-se pensar que é uma comédia italiana sobre a dinâmica de uma família. Nada disso. O título original em italiano, La Vita in Comune, traduz muito melhor o espírito do longa-metragem, que estuda a dinâmica de um isolado vilarejo -- ou uma comunidade, como o título sugere -- no interior da Itália.

 

Para melhor conduzir essa história, o diretor Edoardo Winspeare (In grazia di Dio) foca em três personagens: no prefeito Filippo Pisanelli (Gustavo Caputo) e nos irmãos Pati (Claudio Giangreco) e Angiolino (Antonio Carluccio). Aquele, um ex-ladrão e agora poeta. O outro, um homem que sonha com o roubo perfeito enquanto morre de amores pelo Papa Francisco. Três personagens díspares, mas que funcionam muito bem na tela.

 

Parte dessa responsabilidade de sucesso está nas mãos dos atores. Gustavo Caputo, parceiro de Winspeare no razoável In grazia di Dio, consegue criar um tipo extremamente pacato e de bem com a vida. É extremamente factível, então, a ajuda que ele destina aos dois irmãos, tentando tirá-los da vida de crimes mesmo enquanto precisa enfrentar um complexo processo interno na prefeitura e que pode lhe custar o cargo.

 

Claudio Giangreco, que tinha como último trabalho o longa Sangue Vivo, de 2000, mostra-se um pouco enferrujado no começo, mas logo se solta e forma uma dupla e tanto com Antonio Carluccio. E que ator é Carluccio! Fazendo quase um clichê ambulante do italiano exagerado, ele consegue compôr um personagem extremamente querido e cheio de camadas. É impressionante o que ele, junto ao roteiro, fazem aqui.

O problema de A Vida em Família, então, não está nem nos atores, nem na criação dos personagens e nem no bom retrato que o diretor faz da vida interiorana na Itália -- sem dúvidas, dá vontade de ir correndo morar lá. A grande questão está no desenvolvimento do roteiro e da perda de ritmo crescente e constante que se vê na direção Edoardo Winspeare. É um filme bonito, pra cima, em alguns momentos divertidos e com certa mensagem. Mas e aí?

 

É difícil entender, exatamente, onde Winspeare -- que, além de dirigir, co-roteirizou o filme com Alessandro Valenti -- quer chegar. A ideia de contar a vida do tal vilarejo é deveras interessante. Até por isso, no começo da crítica, há a camada de atenção para o título original. Mas os objetivos ficam muito maiores do que a realização em si. O filme até pode ser agradável de ver, mas cansa tanto marasmo, tanta falta de conflito ou de história.

 

Só os personagens, por mais interessantes que sejam, não conseguem levar a trama à frente e fica tudo muito no raso. Parece, às vezes, que A Vida em Família vai engatar, mas acaba morrendo na praia. O grande problema, talvez, esteja no anseio de contar as muitas histórias -- o garoto apaixonado, o amor pelo Papa, a luta do prefeito pela preservação ambiental. E, no final, nada é aprofundado e o filme, assim, parece flertar com o nada.

 

A Vida em Família é um exercício interessante de direção e, em alguns casos, pode agradar. Ainda assim, difícil conter o sentimento de que faltou algo para dar sustentação numa trama que tanto ansiava, mas com pouco ficou no resultado final da obra. Pode agradar como passatempo, como guia turístico e como um mergulho ocasional e descompromissado no cinema italiano. Mas, infelizmente, não deve ir muito além.

 

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