Crítica: 'After' consegue ser pior do que 'Cinquenta Tons de Cinza'

11/04/2019

Escrita por Anna Todd, o livro After nasceu de um jeito inusitado. Surgiu de uma fantasia juvenil da autora com os meninos da banda One Direction, foi inspirada em Cinquenta Tons de Cinza e, finalmente, foi publicada pela primeira vez na plataforma Wattpad. Ou seja, é um combo de modernices. Por isso, é natural que haja a expectativa de que o longa-metragem inspirado no livro de Todd seja jovem, atual, contemporâneo, com boas ideias e histórias a serem contadas. Mas, infelizmente, não é nada disso que acontece.

 

Dirigido por Jenny Gage (All This Panic), o filme After é uma das primeiras grandes bombas do ano -- afinal, outros filmes péssimos de 2019, como Sereia Funeral em Família, são produções independentes menores. Já este longa-metragem, que chega com expectativa por conta da grande base de fãs ao redor de todo mundo, vem com um selo de grife. É um best seller, estrelado por parentes de famosos. Isso sem falar todo o marketing que está sendo promovido, com elenco e autora vindo ao Brasil e tudo mais.

 

A trama acompanha a história de Tessa Young (Josephine Langford), uma menina certinha, namorada de Noah (Dylan Arnold), que finalmente vai para a faculdade. Só que lá ela acaba conhecendo o descolado Hardin Scott (Hero Fiennes Tiffin). Revoltado com a vida e o mundo, o garoto exerce certa fascinação na garota, que começa a sentir uma atração inexplicável por ele. É o início de uma relação proibida, e fadada ao fracasso, já que ela não tem coragem de terminar com Noah e ele não quer ter um relacionamento.

 

O fato é que After acerta em pouquíssimas coisas. Josephine Langford, irmã de Katherine Langford, se sai bem, mergulha no papel e tem consciência do que está fazendo. O visual geral também é interessante e algumas músicas são bem encaixadas.

 

De resto, apenas ladeira abaixo. Nada, nada funciona em plenitude nesse filme, que é um exemplo de como ter dinheiro e potencial não é garantia de nada. Puxando o gancho da atuação de Josephine, vale a pena falar de Hero Fiennes Tiffins -- este, enquanto isso, sobrinho de Ralph Fiennes. Sua atuação é sem graça, apática, sem vida. Ele não tem capacidade de mudar de expressão em cena alguma. Está sempre com a mesma cara de planta. Perto dele, Cole Sprouse (A Cinco Passos de Você) vira um Al Pacino.

Não teria problema nenhum, porém, se o único problema fosse o garoto Hero. Mas, infelizmente, vai muito, muito além. Há problemas, por exemplo, no posicionamento da câmera da diretora. Por vezes, ela centraliza os personagens e deixa um espaço enorme, e sem sentido, atrás deles -- desrespeitando uma das regra mais básicas da fotografia. É bizarro. Isso sem falar de cenas sem sentido, como a que a protagonista passa maquiagem, enquanto toca uma música alta, para ela dormir em seguida.

 

Além disso, há cenas que provocam gargalhadas espontâneas -- principalmente em alguns exageros dramáticos. A primeira transa entre os protagonistas é patética, muito mal dirigida. É quase um filhote juvenil na cena de Cinquenta Tons de Cinza, quando o Mr. Grey fala "eu não faço amor. Eu fodo. Forte" e coisas do tipo. A criatividade aqui, aliás, é nula. Tudo parece uma eterna ressonância da história de E.L. James. Patético.

 

É uma direção juvenil, extremamente pouco profissional, que choca qualquer um que entenda um pouco mais das necessidades de uma boa direção. Falta bom senso.

 

O roteiro também é falho. Adaptado por Susan McMartin (Mr. Church), a história possui grandes furos que devem incomodar até os espectadores mais atentos. Há uma cena, envolvendo um desencontro entre os protagonistas, já perto do final, que não faz sentido algum. E McMartin não se esforça para fazer com que tenha sentido. É tudo jogado a esmo, sem comprometimento com o público ou com a história. É piada de mal gosto.

 

Não dá pra ignorar, também, uma trama abusiva que circunda toda a história. Não chega aos absurdos da situação de Cinquenta Tons de Cinza, mas acontecem algumas coisas realmente constrangedoras -- como o protagonista comemorando que Tess é finalmente dele ou, ainda, uma bizarra romantização de traições. É preocupante saber que um público juvenil, que ainda não sabe discernir algumas coisas, vai usar isso como base em seu crescimento. Há muita coisa errada por baixo dos panos da história toda.

 

Curiosamente, porém, o filme do Mr. Grey e da Anastasia Steele consegue ter um resultado melhor do que o seu irmão juvenil. Afinal, por mais que o primeiro filme da franquia não tenha história nenhuma, há um estilo de produção. Boa fotografia, trilha sonora bem encaixada, alguns momento marcantes. Aqui nada chega perto disso.

 

After, sem dúvidas, vai figurar na lista de piores de 2019 no final do ano. Apesar do esforço de Josephine Langford e alguns acertos de produção, tudo no filme é juvenil, mal feito. Direção, roteiro, atuações, design de produção e até fotografia, recurso que poderia passar batido num filme como esse, mas que chama a atenção pelos erros de posicionamento e pela palheta escurecida. A torcida é que vá mal de bilheteria. Quem sabe, assim, outras histórias melhores ganham uma chance de adaptação. Isso aqui servirá apenas para que professores de cinema mostrem o que não fazer em um filme.

 

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