Crítica: 'Anon', da Netflix, é filme fraco, frio e superficial

04/05/2018

O cineasta neozelandês Andrew Niccol tem uma carreira extremamente irregular. No currículo, ele conta com algumas produções realmente boas, como Gattaca O Senhor das Armas, mas também já apresentou algumas bombas irrefutáveis como SimoneGood Kill e o instável A Hospedeira. Agora, o diretor chega na Netflix com Anon, longa-metragem que, infelizmente, se encaixa como uma luva na segunda categoria de produções esquecíveis e mal executadas.

 

Na trama de Anon, um detetive (Clive Owen) vive em um mundo onde não é possível ter privacidade e viver de forma anônima, impossibilitando que crimes aconteçam. No entanto, ele se depara com uma jovem totalmente desconhecida (Amanda Seyfried) e começa a perceber que as coisas não são tão simples assim. É uma história que lembra muito o longa-metragem Violação de Privacidade, com Robin Williams, e o episódio The Entire History of You, da provocativa série Black Mirror -- que, curiosamente ou não, também é da Netflix. 

 

Porém, Niccol não consegue criar uma trama tão perturbadora quanto a da série e nem criar cenas tão interessantes quanto a do filme de 2004. Afinal, Anon é repleto de pequenos problemas que vão se amontoando e acabam tomando proporções gigantescas. O primeiro deles é quanto ao tratamento dado à história: ainda que o cineasta tenha se dado bem com temas tecnológicos em Gattaca e, parcialmente, em O Preço do Amanhã, aqui tudo é muito superficial. Quando parece que vai acontecer um mergulho mais profundo, o roteiro volta a ficar raso.

Além disso, a direção do neozelandês está fria, apática e sem impacto. Ele não consegue criar momentos memoráveis e deixa o filme muito lento e sem vida. Tem horas que parecia que Niccol estava tentando dar um ar de Blade Runner à produção, mas não consegue passar num produto genérico esquecível. E não há aspectos técnicos memoráveis: a fotografia é acinzentada demais, a câmera não inova e, praticamente, não trilha sonora ou bons efeitos.

 

O elenco, infelizmente, também está numa apatia desesperadora. Clive Owen está em uma maré péssima e ainda não conseguiu se recuperar de fracassos como Valerian Os Últimos Cavaleiros. Continua sem grandes momentos na telona. Amanda Seyfried (Mamma MiaGringo) também continua com uma carreira absolutamente instável. Aqui, ela até tenta, mas é sobrepujada por uma personagem caricata, óbvia e sem aprofundamento. Colm Feoro (Thor) está operante.

 

Por fim, Anon -- seja em termos de roteiro, do próprio Niccol, ou direção -- perde a grande chance de se redimir nos minutos finais. Ao invés de entregar um final impactante que reverta tudo o que foi visto até então, o longa-metragem segue para um caminho também frio, apático e sem vida. O que é para ser uma grande revelação, se torna uma conclusão esquecível e um tanto quanto previsível. Não há força no final, que apenas esbarra na emoção.

 

Anon, então, sem dúvidas, não fica ao lado de O Senhor das Armas e Gattaca na filmografia do cineasta. É um longa-metragem esquecível e que é superado em qualidade temática, veja só, até por um episódio de 49 minutos de Black Mirror. Faltou se aprofundar no tema, faltou energia e faltou, principalmente, inovação na abordagem. De resto, só sobraram algumas boas sacadas -- como ilusões criadas na mente do detetive. Fica ao lado, também, de The Titan Cloverfield: Paradox como grandes erros da Netflix na ficção científica. Melhor ir ver o filme do Robin Williams.

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