Crítica: 'As Quatro Irmãs' é delicado filme sobre família e memória

19/10/2018

Nos últimos tempos, o cinema nacional tem visto um movimento cada vez mais frequente que mistura ficção e documentário. A maioria deles, porém, segue o caminho de retratar duras realidades do Brasil, assim como promover críticas sociais -- é o caso de Arábia e Camocim, por exemplo. O novo filme dirigido pelo cineasta Evaldo Mocarzel (Até o Próximo Domingo) usa essa premissa, mas a revigora com a história ficcionalizada da família de Vera Holtz, mostrando a origem da atriz e sua intimidade.

 

Experimental e cheio de novas linguagens, As Quatro Irmãs coloca Holtz e suas três irmãs no casarão onde cresceram com seus pais. Com uma mistura de linguagem que vai de Brecht até Bergman, Mocarzel conduz o quarteto sem uma linearidade central, mas sempre voltando à questão da perda de memória de Holtz, que não consegue lembrar de aspectos banais de seu crescimento e adolescência. Com esse conflito ali estabelecido, ela e suas irmãs relembram -- e contam para a tela -- coisas pequenas da vida, mas que a influenciam até hoje. É bonito de ver essa construção do passado.

 

Para que isso dê certo, Holtz e Mocarzel se despiram de vaidades. O diretor pelo fato de que a atriz engole o filme para si, como se fosse um retrato pessoal indo para a telona, sem um intermediário. Já Holtz, que fez sucesso em novelas como Belíssima Avenida Brasil, enquanto isso, deixa todas as suas fragilidades transparecerem de maneira natural e fluída. Poucos artistas com a expressão nacional de Holtz teriam a coragem de trazer à tona segredos, medos e anseios tão íntimos e particulares de modo tão direto.

Assim, o filme já ganha em intensidade e originalidade. E, conforme vai passando sua história, outros aspectos ganham ainda mais expressão, como a fotografia limpa e cheia de significados e até a montagem, que não segue ordens óbvias ou tradicionais. É cheia de vida, assim como a história contada. Tudo combina neste novo filme de Mocarzel.

 

Além disso, é esperta a inserção da ficção. Em determinados momentos, Holtz se veste com roupas de sua mãe e cria uma espécie de psicodrama, onde se coloco no lugar da matriarca e fala livremente sobre suas filhas. É aqui que o longa sai do aspecto meramente documental, que poderia acabar gerando um ego trip desnecessária sobre a atriz ou, ainda, uma variação mais talentosa de um vídeo caseiro sobre a família Holtz. Não é isso que acontece, felizmente. A ficção só melhora a qualidade geral do longa.

 

Nem tudo são flores, porém. O filme, mesmo tendo pouco mais de 70 minutos, se torna um pouco trôpego em passagens metafórica demais e sem muita conexão com a audiência -- algo que lembra muito os devaneios oníricos de Terrence Malick. Falta um pouco mais de explicação, sem didatismo. Além disso, duas das irmãs de Holtz acabam caindo na artificialidade exagerada. Um risco ao dirigir não-atores. Só a irmã mais velha, Teresa, que consegue manter a naturalidade ao longo de todo longa-metragem.

 

Ainda assim, porém, As Quatro Irmãs é um filme para ser apreciado. É original, instigante, provocativo. Ainda que fale sobre a vida de uma única família, ele se expande e toma um proporção metafórica interessante, quando várias pessoas poderão se identificar com o que está sendo contado em tela. Palmas para Holtz e Mocarzel, que souberam aproveitar a história e transformá-la num ótimo e original filme nacional.

 

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