Crítica: 'Assunto de Família' apresenta mensagem atual e emocionante

10/01/2019

Difícil entender, logo de cara, qual é a configuração da família que protagoniza o drama japonês Assunto de Família, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes e um dos possíveis concorrentes à Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Afinal, a matriarca da família é a idosa Hatsue Shibata (Kirin Kiki). Abaixo dela na árvore genealógica, estão os adultos Osamu (Lily Franky) e Nobuyo (Sakura Andô) -- casados, mas que não possuem um vínculo claro com Hatsue. E ainda tem a jovem adulta Aki (Mayu Matsuoka), que tem uma relação profunda com a idosa, e o pequeno Shota (Jyo Kairi), talvez filho do casal.

 

E as coisas se complicam ainda mais quando, voltando do mercado, Osamu e Shota se deparam com a pequena Yuri (Miyu Sasaki), criança que fica do lado de fora de casa para evitar as brigas dos pais. De fronte com essa situação, pai e filho decidem levá-la para casa para alimentar e impedir que passe muito frio. No entanto, logo essa situação se prolonga e a pequena Yuri, quase sem querer, se torna um membro efetivo da família Shibata -- que passa a ter uma configuração familiar ainda mais estranha e complexa.

 

Esse sentimento de estranheza, claro, não é à toa. O excelente diretor Hirokazu Koreeda (Pais e Flhos Depois da Tempestade) trabalha com esse distanciamento da configuração familiar tradicional e esperada para fazer com que o espectador, frente às situações cotidianas dessa família, vá se adaptando ao ritmo dos Shibata e tentando compreender o que acontece ali. Afinal, nada é convencional, nada é óbvio. As relações familiares ali parecem forçadas, as crianças acabam servindo à Osamu como pequenos ladrões de lojas e ninguém possui um emprego formal, fixo. Tudo vai sendo "levado".

Essa situação estranha, mas ainda assim cheia de banalidades, poderia ser um convite à chatice se o filme fosse mal feito. Mas, além da direção sensível de Koreeda, há um verdadeiro espetáculo interpretativo por parte do elenco. Lily Franky (Pais e Filhos) é um homem cheio de contradições, mas com uma bondade que parece ser inerente ao seu existir. É lindo ver como o ator conseguiu criar algo do tipo. Outro destaque são as crianças. Kairi e Sasaki entregam performances surpreendentes para idade, repletas de realismo e verdade. Junto com o resto do elenco, amplificam a narrativa e a história.

 

Para lamentar, só alguns arcos narrativos que acabam subaproveitados -- principalmente um envolvendo a personagem de Kirin Kiki. Parece que falta algo ali.

 

O grande ponto de Assunto de Família, porém, é a conclusão. Cada cena ali mostra como foi pensada para que, ao final, uma forte mensagem sobre família e solidão eclodisse de toda essa estranheza e complexidade daquele grupo familiar. É a mostra de Koreeda de como há histórias fortes a serem extraídas de histórias aparentemente banais que existem por aí -- e que, ao final, se revelam difíceis de decifrar. É um encerramento magistral de um filme que sabe, como poucos, mostrar o outro lado das famílias, do jeito que pessoas lidam com a solidão e do próprio Japão. Filmaço de Koreeda, que só não leva o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por conta de Roma. Senão, tava na mão.

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