Crítica: 'Através do Fogo' é bom drama sobre recuperação e autoestima

13/06/2019

Franck (Pierre Niney) é um bombeiro, em Paris, que trata principalmente de acidentes, emergências e coisas do tipo. Mas ele, que é casado com a belíssima Cécile (Anaïs Demoustier) e que logo terá gêmeas em casa, almeja novos voos. É aí que ele decide se arriscar, fazer um curso preparatório dentro da corporação e iniciar no combate à incêndios. No entanto, logo no primeiro grande caso, Franck acaba se sacrificando em meio às chamas para salvar sua equipe. Como resultado, o rosto fica desfigurado, as mãos queimadas, perde o emprego e precisará passar por uma longa recuperação.

 

Esta é a trama principal do drama francês Através do Fogo, do diretor Frédéric Tellier (O Caso SK1). Sem medo de apostar no dramalhão pesado, em que quase não há respiro para a audiência, o longa-metragem é uma pancada que dura, sucessivamente, ao longo de quase sua totalidade, de 116 minutos. Dá pra excluir, apenas, o começo que apresenta a rotina do bombeiro. De resto, o filme é o mais forte e fidedigno sobre o drama de quem tem seu corpo queimado -- algo que é esquecido pelo cinema moderno.

 

E para representar essa realidade, Tellier e seu parceiro de roteiro, David Oelhoffen (Inimigos Íntimos), optam por uma narrativa fragmentada. Por mais que seja linear, as passagens de tempo acontecem de maneira rápida, quase imperceptível. Este filme é daqueles que avançam longos períodos de uma cena para a outra e é preciso que haja breves explicações do que ocorreu e do que deixou de acontecer. Claro, a dupla de roteiristas acaba avançando em alguns didatismos, mas quase tudo funciona. A passagem de tempo, por mais que soe estranha, funciona para o caso dessa história.

 

Afinal, o drama de Franck é sentido. Mesmo que a passagem de tempo seja longa entre as cenas, vê-se o sofrimento do personagem. As ataduras, o medo da primeira vista para o rosto, o reaprendizado para andar e coisa do tipo vão sendo exibidos na tela com calma, respeito e profundidade. As coisas ganham ainda mais camada com a atuação potente de Niney (Frantz). Astro francês já consolidado, o ator mostra mais uma vez como faz jus à sua fama. Ele acerta no tom, no drama, na maneira que enxerga o seu personagem. Difícil não deixar que algumas lágrimas escorram aqui e ali. É forte.

Demoustier (Os dois filhos de Joseph) ajuda a contrabalancear o drama do protagonista, enquanto isso. Afinal, enquanto Franck vive uma torrente de emoções intensas, Cécile precisa canalizar todos seus sentimentos para conseguir lidar com o abalo emocional do marido e, ainda por cima, com as filhas que estão crescendo. Por mais que seja algo secundário no filme, o drama da personagem também é sentido através da tela. Emociona, é humano, faz sofrer. E a atriz mostra que tem ainda mais potencial cênico.

 

No entanto, o filme tem alguns probleminhas. Primeiro: a passagem de tempo, que é um bom artifício durante os dois primeiros atos do filme, deixa de funcionar na parte final. Franck, afinal, passa por uma transformação que não pode ser compreendida com saltos exagerados na temporalidade. Acaba ficando algo artificial, pouco crível -- mesmo com Niney e Demoustier se desdobrando para conseguir emprestar veracidade ao caso.

 

A maquiagem do filme, a cargo do talentoso Frédéric Lainé (A Noite Devorou o Mundo), também poderia ser um pouco mais caprichada. O choque que se espera quando o protagonista tira a máscara pela primeira vez não vem. Parece que falta algo realmente forte, chocante, impactante -- espera-se, pela sinopse do filme, algo parecido com o que se vê em alguns personagens que sofreram queimadura na série Chernobyl, por exemplo. Parece que faltou um pouco mais de verba para deixar a queimadura realista.

 

Em conclusão, Através do Fogo é um drama difícil de assistir. Pesado, quase cai no dramalhão, mas é salvo pela esperta condução narrativa e pela boa atuação do casal de protagonistas. Possui problemas no terço final e em alguns aparatos técnicos, mas o cenário geral é positivo -- só a cena do incêndio, desesperadora e extremamente realista, já vale o ingresso. Bom filme para quem gosta de dramas reais, pouco convencionais, e que não temem apelar para o emocional. Se assistir, vai sair abalado.

 

Filme assistido durante a cobertura especial do Festival Varilux de Cinema Francês 2019.

 

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