Crítica: 'Baseado em Fatos Reais' falha com história sem novidades

13/04/2018

Baseado em Fatos Reais teve sua primeira exibição em maio de 2017, no Festival de Cannes. Ainda que Roman Polanski, diretor do longa, seja mundialmente reconhecido por obras como O Bebê de Rosemary e O Pianista, é necessário questionar quão certo é ceder-lhe esse espaço neste tipo de evento. Afinal, há 39 anos o cineasta é considerado foragido pelos Estados Unidos após ser condenado pelo estupro de uma menor de idade.

 

A relação entre carreira e vida pessoal tem sido um debate polêmico, e necessário, nos últimos anos. Recentemente, quem teve sua carreira levada por água abaixo foi o ator Kevin Spacey, após ser acusado por abuso. Não apenas ele foi obrigado a deixar seu papel de protagonista na série original da Netflix, House of Cards, como também  foi substituído por Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo. Ao mesmo tempo que medidas radicais foram tomadas para esse tipo de situação, Polanski encontra-se foragido na França, dirigindo filmes com grandes artistas, como é o caso deste, que inclui a atriz Eva Green.

 

Originalmente intitulado de D’après une histoire vraie, o filme se inicia com o sucesso literário de Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner). Uma fila formada com centenas de pessoas, ansiosas pelo autógrafo da escritora. Seus fãs contam o quanto se emocionaram com o livro, que traz temas como internação e suicídio, pelo seu aspecto realista. Quando Delphine pede que encerrem a sessão de autógrafos, quem aparece é Elle, interpretada por Eva Green. Com um sorriso que consegue ser bonito e perturbador simultaneamente, Elle entra na vida da autora de maneira abrupta e estranha. O filme a partir daí recupera traços de Misery, obra de Stephen King, pois se estabelece uma relação de obsessão do admirador sobre o admirado.

No aspecto inovação, Polanski falhou de maneira significativa. E mais do que isso: para provar um ponto bastante óbvio, acabou se repetindo mais do que o necessário, e tornou o filme ainda mais lento. O thriller psicológico tem uma história interessante, mas cenas que fazem o público se perguntar se já assistiram à esse filme antes. Polanski parece ter sido influenciado por filmes como Corra! e A Bruxa, em que existe uma tensão inerente, porém sem jumpscares. Funciona, mas de maneira previsível.

 

Talvez o grande ponto forte do filme passe despercebido. Ainda que de maneira confusa, o filme trata sobre a loucura da protagonista, seja através de sua relação com Elle, de sua exaustão ou de sua ingestão exagerada de remédios, entre eles um ansiolítico. Enquanto a personagem vive sua loucura, também expressa a importância de relatar a verdade. Não se esclarece na história se a loucura se trata apenas de possíveis delírios, alucinações, ou até mesmo de um transtorno de personalidade. De qualquer forma, revela nas entrelinhas como mesmo a realidade vivida pela personagem é real. O fato de sua realidade se distinguir da esperada não tira sua veracidade.

 

Polanski utilizou recursos linguísticos que dão pistas sobre o final do filme, ainda que bastante sutis. O idioma original é francês, então é esperado que na tradução algo seja perdido. Exemplo disso é o próprio nome da personagem de Eva Green. Ela afirma, logo no início, que Elle é um apelido para Elisabeth. No entanto, elle em francês significa ela, ou seja, trata-se de um artigo indefinido, não um nome próprio. É a partir desse mistério que o espectador começa a adquirir dicas sobre sua verdadeira identidade.

 

Polanski conseguiu retratar bem uma psicopatologia, ainda que a mesma não fique clara. Conceitualmente, é possível se confundir sobre o que é sintoma e o que é efeito colateral. Mas acredito que essa tenha sido sua intenção. A história é mais interessante do que a maneira como ela é exposta no filme. No entanto, aborda a loucura de uma maneira diferente, ainda que a relação de obsessão já tenha sido bastante explorada no cinema.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Recentes
Please reload

Arquivo
Please reload

Publicidade