Crítica: 'Black Mirror: Bandersnatch', da Netflix, é bom filme, apesar de pouco fluído

28/12/2018

Foi entre 1992 e 2000 que a TV Globo exibiu o programa Você Decide. Comandado por atores como Antônio Fagundes, Lima Duarte e Tony Ramos, a atração tinha um diferencial inédito na mídia brasileira até então: a cada episódio, encenava-se uma história e o espectador, por meio de votação no telefone, escolhia quais os caminhos que deveriam ser traçados pelo personagem. Foi um sucesso e se tornou o segundo seriado com o maior número de episódios na emissora carioca -- atrás só de A Grande Família. Agora, este poder interativo ganha outra roupagem pelas mãos da Netflix com o filme Black Mirror: Bandersnatch, que estreou na plataforma de streaming na sexta, 28.

 

A trama, passada em 1984, acompanha a vida de Stefan (Fionn Whitehead), um jovem programador que decide adaptar um livro interativo para um jogo de videogame. A ideia é que o game, assim como o livro, deixe as principais tomadas de decisões na mão do público. A história irá se comportar de acordo com o que for decidido por quem a joga. O grande diferencial da trama de Bandersnatch, porém, está no fator metalinguístico da produção: assim como o jogo criado por Stefan, o espectador vai tomando decisões narrativas com um simples toque do controle remoto. É possível tomar decisões banais, como o cereal que o personagem vai comer, até como esconder um corpo ou se drogar.

 

A sensação, assim como no saudoso Você Decide, é de um poder extremo. Por mais idiota que seja a atitude tomada após um clique, há certa satisfação no que se apresenta a seguir na tela. E o diretor David Slade (responsável pelo episódio Metalhead, de Black Mirror) sabe disso. Por isso, logo que surge a primeira oportunidade, ele começa a brincar com esse "poder" da audiência -- e aí a produção começa, de fato, a ficar interessante. O personagem de Whitehead toma consciência da existência de alguém escolhendo suas atitudes e Bandersnatch ganha ares de O Show de TrumanÉ o ápice da produção e quando a interatividade atinge níveis inacreditáveis.

 

É, de fato, um novo marco no cinema moderno. A Netflix mostra, mais uma vez, como a discussão sobre cinema tradicional e streaming tem muito a contribuir e a acrescentar.

No entanto, nem tudo é perfeito. Em nome da interatividade, a trama de Bandersnatch perde muita força. A escolha de caminhos da trama, afinal, vai se mostrando falsa de acordo com o avançar da história. Fica claro que Slade mantém domínio sobre o que acontece. Há, sim, cinco finais distintos. Mas o filme só acaba e as escolhas só deixam de pipocar na tela quando um deles é atingido. Como um personagem fala durante a trama, o livre arbítrio, muitas vezes, é falso. Sentimos que estamos no controle de uma história ou de uma situação sendo que o final já está pronto e escrito há muito tempo. E em Bandersnatch, é claro, isso não é diferente.

 

Assim, a trama dá voltas e voltas e mais voltas para chegar no ponto que quer. É cansativo e a necessidade de voltar para outros pontos da narrativa tira o espectador do filme -- assim como era cansativo, em Você Decide, esperar pelo resultado da votação por telefone. O roteiro e a imersão, dessa maneira, caem por terra em nome das escolhas e da brincadeira que a Netflix optou por fazer com o público. Muitas pessoas, inclusive, estão relatando irritação durante o filme, já que o final não chega e não há informação de quanto tempo falta para acontecer algo. A tela inicial acusa 1h30 na versão básica, mas o Esquina demorou mais de duas horas e quinze para que os créditos subissem e acabassem opções. Algumas pessoas relatam duas horas e meia.

 

Mas enquanto o roteiro vai se tornando cíclico e repetitivo, porém, alguns outros aspectos fílmicos se sobressaem. Fionn Whitehead (Dunkirk), apesar de irritante, se sai bem no papel de pessoa atormentada. Dá um show perto do final. Will Poulter (O Regresso) também se sai bem como uma espécie de mentor do protagonista, ainda que seu papel exija muito menos -- só em um dos cinco finais que ele tem um grande momento. Craig Parkinson (Line of Duty) e Alice Lowe (Solis) estão bem e dão suporte à trama quando precisam. Como sempre, Black Mirror apresenta um elenco muito coeso -- mas que, de certa forma, também acaba sacrificado pela interatividade do filme.

 

É difícil, então, avaliar Bandersnatch. Pensando na trama de forma linear, e com o final desejado pela produção, é excepcional. Uma das melhores histórias de Black Mirror. O bom elenco está ali, o roteiro é afiado e a direção se apresenta de forma vigorosa. Isso sem falar da interatividade que, de certa forma, é um marco no streaming. Sem dúvidas, será um exemplo a ser estudado e analisado ao redor do mundo. Mas o cansaço gerado pelas voltas da trama e a fluidez sacrificadas não devem ser levadas em conta? Afinal isso, de certa maneira, não afeta o resultado final? O futuro de tal formato só o tempo vai dizer. Por enquanto, é um bom e inovador filme. Mais que isso, é só mais hype.

 

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