Crítica: 'Chicuarotes' é bom retrato da América Latina

05/09/2019

Cagalera (Benny Emmanuel) e Moloteco (Gabriel Carbajal) são dois amigos adolescentes que vivem na Cidade do México. Insatisfeitos com a situação financeira que norteia as suas vidas, a dupla de amigos faz o que pode para ganhar alguns trocados. Palhaçadas no ônibus, furtos e até roubos a mão armada. É aí que começam os problemas dos dois amigos, que passam a entrar num mundo de crimes mais perigoso do que pensam.

 

Esta é a trama do bom Chicuarotes, dirigido pelo também ator Gael García Bernal. Aqui, ele surpreende no comando do longa-metragem após o insosso Déficit, seu filme de estreia lançado em 2008. Há mais maturidade em tudo. Nos ângulos de filmagem, na paleta de cores, no comando dos dois bons protagonistas. É uma produção madura, que mostra como Bernal aprendeu nos últimos 11 anos. Soube colocar a experiência na tela.

 

Mas o grande trunfo do filme está na capacidade do diretor em transitar entre gêneros. A tragédia está ali, em cada diálogo, em cada cenário, em cada modo de agir. É a realidade da América Latina como um todo. Dá, tranquilamente, para enxergar o Brasil ali. Basta trocar o idioma, o nome das cidades e acabou. No entanto, há também um humor sutil que surge nas entrelinhas e, principalmente, nas ações do protagonistas.

Benny Emmanuel (Detrás de la Montaña) é quem conduz o filme às emoções mais explícitas. É aquele garoto que quer mudar de vida à todo custo, sem pensar nas consequências, e acaba levando o longa-metragem à situações desesperadoras. Já o calado personagem de Gabriel Carbajal transita entre olhares, silêncios, sorrisos. Não diz quase nada, mas, ainda assim, representa muito para a trama como um todo.

 

São personagens bem construídos, bem arquitetos e desenvolvidos. Ponto para o roteirista Augusto Mendoza (Sr. Pig), que cria dois personagens queridos e reais. A América Latina está ali. Debaixo da cara triste de um palhaço, sob a mira da arma de dois adolescentes, no estômago que ronca de fome. É tudo verdade. Tudo muito real.

 

No entanto, ao mesmo tempo, Mendoza pesa as tintas demais em algumas passagens. Certos pontos da narrativa ficam atravessados demais, alguns outros cansam. A relação com o violento pai de Cagalera não é bem explorada e Bernal acaba recaindo em clichês novelescos. Há, também, uma falta de melhor exploração do ambiente daquele bairro, daquela cidade. Algumas coisas acontecem e não ficam claras para quem não é de lá.

 

Mas Chicuarotes, no geral, cumpre bem a sua missão. Bernal mostra que amadureceu. Dá vontade de ver mais histórias contadas por ele, já que os últimos longas atuados pelo mexicano são sofríveis -- principalmente Museu, Estás me Matando Suzana Se Você Visse o Meu Coração. Melhor esse Bernal autoral, que viaja pela América Latina, do que este que acaba refém de roteiros e produções ruins. A América Latina precisa de mais retratos assim. Trágicos, mas bem humorados. Fortes, mas alegres. Bons e reflexivos.

 

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