Crítica: Clementina de Jesus ganha justa homenagem com documentário

18/10/2018

Pelo Telefone, primeiro samba da história, foi composto por Donga e João da Baiana numa feijoada na casa de Tia Ciata. O cenário, ainda que aqui relatado de forma simplista, diz muito sobre o estilo musical em sua gênese, quando os homens eram as cabeças por trás das melodias e letras e as mulheres, enquanto isso, adquiriam esse aspecto de "hóspede" de músicos. Elas recepcionavam o encontro, a conversa, o samba.

 

O cenário só mudou anos depois, quando mulheres foram saindo da cozinha e ganhando seu justo espaço no mundo no samba, como Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho e Leci Brandão. Uma delas, porém, foi descoberta de maneira tardia e quase acidental: Clementina de Jesus. Hermínio Bello de Carvalho estava passeando pelo Rio quando entrou num bar e se deparou com a cantora, neta de escravo e empregada doméstica. Se apaixonou pela voz daquela senhora de 63 anos na hora.

 

Agora, a sambista ganha uma justa homenagem com o longa-metragem Clementina, de Ana Rieper (do excepcional Vou Rifar Meu Coração). A sua história é desnudada em 75 minutos, indo desde os avós escravos, os pais pobres e a fina relação da cantora com a África -- coisa que moldou sua música e sua inspiração nos anos como artista. Para isso, a cineasta busca parentes, amigos e sambistas que, mais do que palpites e opiniões, possuem uma fina relação de conhecimento e intimidade com Clementina.

 

Não há excessos, gorduras, entrevistas longas demais. O comando de Rieper deixa claro que o objetivo é contar a história de Clementina, hoje tão esquecida, e exaltar a beleza de sua música. A primeira cena do documentário é belíssima: uma entrevistadora, com forte sotaque estrangeiro, pede para Clementina cantar uma música. O que se sucede é uma sequência de imagens da periferia do Rio embaladas pela voz grossa e característica de Clementina. É lindo de ver, ouvir, sentir. É, em resumo, Clementina.

 

Além disso, a cineasta não se resume apenas a contar a história de vida da cantora de forma linear -- como o recente documentário sobre Adoniran Barbosa, por exemplo -- ou se limitar a aspectos básicos. Assim como em Vou Rifar Meu Coração, a diretora fala sobre tudo que envolve aquela personagem: a religião, a vida sofrida da família, a profissão antes da música, a "descoberta" feita por Hermínio Bello de Carvalho, a relação com a família. São aspectos básicos, mas que vão muito além do breve relato.

 

Os 75 minutos do filme, porém, parecem pouco para conseguir conter todos os traços e particularidades de Clementina. Ainda que tenha toda essa complexidade trazida por Rieper, alguns dos temas são tratados de forma superficial, rápida demais. Dá vontade de ouvir Hermínio falando mais sobre o primeiro encontro ou, ainda, da importância de Clementina no samba segundo Nelson Sargento e Alcione. Algumas coisas, de tão boas que são, passam rápido demais. Rieper poderia dar tempo mais pra nos deliciarmos.

 

Além disso, há um fator muito pequeno, mas de grande impacto: a falta de créditos nos entrevistados. A cineasta optou por colocar apenas o nome de cada um, sem descrições de quem é ou sobre sua relação com Clementina. Acaba limitando o alcance do filme.

 

Ainda assim, Clementina é um filme justo para um dos pilares do samba brasileiro e, principalmente, da cultura africana. É uma figura que conseguiu reverter tabus e mostrar que lugar de mulher não é apenas na cozinha. É, também, no samba, na roda de batucada, na frente das câmeras, ao lado de outros grandes bambas que marcaram geração. Homenagem merecida e que, sem dúvidas, engrandece a Mostra de SP. 

 

Este filme foi assistido durante a cobertura especial para a 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP.

 

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