Crítica: ‘Deserto’ é bom filme de gato-e-rato, mas falta profundidade

06/11/2017

O cineasta Alfonso Cuarón fez história com filmes como Gravidade e Filhos da Esperança. E agora, o filho Jonás Cuarón está tentando seguir o mesmo caminho do pai. Após testar formatos e experiências em curtas-metragens, ele partiu para seu primeiro grande filme com Deserto, longa-metragem com trama de gato-e-rato que ecoa em políticas sociais de Donald Trump e que encaixa como crítica perfeita ao que os mexicanos estão precisando enfrentar no país.

 

Não tem muito o que falar da trama -- afinal, ela é um fiapo, quase inexistente. De maneira bem básica, então, Deserto acompanha um grupo de mexicanos que tenta entrar nas terras do Tio Sam de maneira ilegal, atravessando a fronteira entre os dois países. No entanto, os imigrantes não esperavam encontrar um “lobo solitário”, um homem qualquer e sozinho que fica vigiando a fronteira e que mata qualquer um que tenta atravessar. Isso mesmo: ele dá tiros em mexicanos.

 

A partir daí, o roteiro -- também escrito por Jonás -- cria uma trama de gato-e-rato, de pura perseguição. Não há muito história além da metáfora óbvia e que permeia toda a narrativa. Gael García Bernal, que faz um dos mexicanos, e Jeffrey Dean Morgan, que faz o homem que mata imigrantes, não contam com muito trabalho interpretativo. As sequências de Jonas são simples: Morgan mata mexicanos, eles fogem, começa a perseguição e  ele mata mais alguns. E o ciclo recomeça.

Assim, até certa parte do filme, a história de Deserto funciona. É angustiante ver a caçada de Morgan e Bernal, que às vezes se inverte e outras ganha recursos óbvios, mas divertidos de ver na tela. Cuarón, apesar de mostrar certa insegurança com a câmera, tem um e outro bom momento como diretor, criando algumas cenas que causam forte angústia pelo vazio daquele deserto que toma conta da fronteira. É angustiante ver a caçada em meio ao nada daquele lugar.

 

Sobre angústia, aliás, é estranho perceber que os personagens não criam vínculo. Apesar do espectador torcer, naturalmente, para Bernal, falta alguma coisa, um aprofundamento maior na narrativa. Não sabemos nada sobre aqueles dois e entendemos muito pouco quais motivos fizeram a personagem de Jeffrey Dean Morgan assumir aquela caçada. No final, o único personagem que cria vínculos é o cachorro. Afinal, não precisamos de histórias com animais para um vínculo nascer.

 

Deserto é um filme que serve como uma boa crítica para o momento que vivemos -- ainda que ele tenha sido filmado há dois anos e só esteja chegando agora aos cinemas, de forma bem atrasada. Tem boas cenas de perseguição e é angustiante por conta de planos visuais da região. Ainda assim, porém, fica o gosto de que faltou algo, de que o filme não completa os sentimentos do espectador. Sem dúvidas, faltou experiência para Cuarón. Ele precisa de muito chão para chegar perto do pai.

 

BOM

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Recentes
Please reload

Arquivo
Please reload

Publicidade