Crítica: 'Doutor Sono' se perde em desejo nostálgico de emoção

05/11/2019

O Iluminado é um clássico absoluto. Seja na literatura, pelas mãos de Stephen King, ou no cinema, pelas mãos de Stanley Kubrick. Por isso, é muito arriscado fazer uma continuação direta dessa história, na mídia que seja. King lançou a sequência do famoso livro em 2013, dividindo a crítica. Já a sequência cinematográfica chega aos cinemas na quinta-feira, 7, com uma proposta ousada que tenta resgatar a nostalgia da trama.

 

Dirigido por Mike Flanagan (da excelente série A Maldição da Residência Hill), Doutor Sono mostra a vida posterior de Danny Torrance (Ewan McGregor) e a descoberta de que há ainda mais pessoas com o dom da iluminação -- algo que, na primeira história, ficava restrito ao menino e ao cozinheiro do Hotel Overlook. E mais do que isso: além de outras pessoas com o dom, Danny conhece um grupo que as mata para sugar seus "poderes".

 

A partir daí, Flanagan, que também é roteirista, desenvolve a trama em dois pilares: a relação de Danny com uma outra menina muito iluminada, a jovem Abra Stone (Kyliegh Curran); e o enfrentamento contra esse grupo de criminosos, liderado pela estranhíssima Rose The Hat (Rebecca Ferguson, péssima). É praticamente dois filmes em um. Cada um com sua qualidade. Seus pontos altos e seus pontos fracos, no geral.

Mas o fato é que Doutor Sono funciona quando ele assume um espírito próprio e se desprende do filme de 1980. A repetição no uso de iconografia e de personagens marcantes é utilizada de maneira torta -- em pouquíssimos momentos, de fato, elas funcionam. Na maior parte do tempo, causam uma certa vergonha alheia e uma nostalgia forçada. Uma das cenas, em especial, é mal dirigida e causa constrangimento.

 

Outra coisa que causa constrangimento é a atuação de Rebecca Ferguson (Missão: Impossível - Efeito Fallout). Por mais que a sua personagem seja alternativa e com um jeito bem particular, ela não consegue passar a ameaça que realmente precisa -- no livro de King, por mais que tenha problemas, ela é realmente perigosa. Aqui, o que se vê é apenas uma atriz, com trejeitos exagerados e um chapéu, tentando passar algo além.

 

Pelo menos McGregor (Trainspotting) compensa no âmbito da interpretação com um Danny Torrance atormentado, quase fora de si. É interessante observar sua degradação e a forma como ele encaram o dom da iluminação. Aqui, de fato, o personagem evoluiu.

 

E isso mostra como Doutor Sono seria muito melhor se Flanagan tivesse se dedicado mais ao presente, a evolução natural da trama. Ela funciona, é interessante e não entra em rota de colisão com a história original -- por mais que seja interessante ver um final que honra King e, de certa forma, se vinga do que Kubrick fez na adaptação. A ação, o lado atormentado de Danny, a tentativa de ajudar a jovem Abra. As coisas interessam.

 

Uma pena, porém, que isso não seja o foco do filme. A nostalgia forçada, o retorno de personagens em cenas desnecessárias e a vergonha alheia em cenas que não sabem lidar com o clássico incomodam. Não estragam, porém -- os fãs mais aguerridos do filme, talvez, gostem mais pela presença de antigos conhecidos. Mas que falta algo, falta. Uma melhor coesão de histórias, um melhor trato na nostalgia e 20 minutos a menos dariam um tom melhor. Do jeito que ficou, a vergonha acaba tomando conta.

 

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