Crítica: 'Fica Comigo', da Netflix, beira o brega e lembra dramalhão mexicano

26/06/2017

Já cansei de criticar os longas-metragens da Netflix. Aqui no Esquina, já falei que War Machine e o recente Shimmer Lake  não agradaram, mesmo com boas premissas. No Estadãofiz uma longa e detalhada análise sobre falhas do serviço de streaming quando o assunto é filme. Parece até uma perseguição, mas juro que não é.  Simplesmente, a empresa de streaming  não consegue produzir nada de bom que não seja dividido em temporadas ou que não seja um documentário. Prova disso é o mais novo lançamento da plataforma, o filme Fica Comigo.

 

Na sinopse do filme, a Netflix alardeia que o longa-metragem é uma mistura de drama, romance e suspense: "após uma noite de sexo, Holly fica totalmente obcecada por Tyler e, com esperanças de dar continuidade ao romance, começa a estudar na escola dele." Impossível não chamar a atenção com esta premissa.  Lembra até mesmo alguns clássicos do cinema,  como A Garota Trieste e até A História de Adèle H.. No entanto, não é nada disso: o resultado de Fica Comigo fica mais próximo de um dramalhão mexicano do SBT.

 

Os erros começam com o roteiro, que parece ter sido escrito por um iniciante. Não há nuances na história, não há desenvolvimento de personagens. Além de Holly, nenhum outro tem camadas em suas personalidades. O tal do Tyler,  citado na sinopse, parece uma tábua de emoções desprovida de qualquer atitude. A sua namorada, que não é a Holly, até faz um ensaio de desenvolvimento de personalidade no começo da trama, mas logo é deixada de lado para ser, simplesmente, a garota que é bondosa e acredita em todos ao seu redor.

 

Holly, enquanto isso, ganha algumas camadas em sua personalidade. No entanto, seria melhor se tivesse parado no raso: o roteiro,  escrito pelo pouco conhecido Ben Epstein (The Reunion), beira o absurdo quando tenta criar motivações para a personagem, apelando para soluções óbvias e para tramas novelescas. A atriz Bella Thorne, que parece gostar de produções de "lado B", também não ajuda na construção de Holly: ela abusa de maneirismos e, no momento que tem para brilhar, ela apenas causa constrangimento.

 

O elenco, aliás, é uma grande tragédia. Taylor Johson Smith, que interpreta o Tyler, não consegue passar a emoção necessária, enquanto a jovem Halston Sage não consegue repetir a boa atuação em Antes que eu Vá. Com expressões monótonas e sem alteração,  ela lembra Kirsten Stewart na época de Crepúsculo. Não passa emoção e não cria em cima das situações de sua personagem. É só mais um papel na carreira da atriz, que vai trilhando um caminho um tanto óbvio, sem grandes momentos.

 

A "cereja do bolo" para o fracasso total do filme, porém, está nas mãos do diretor Brent Bonacorso (que só tinha dirigido curtas e um clipe da Katy Perry).  Sua direção é sem ousadia, sem planos de câmera. Ele não consegue fazer uso da boa situação que é criada pelo pretexto do roteiro, nem ao menos tem capacidade de criar o clima de suspense exigido. Ele apenas faz uso de jump scares e situações clichês para dar alguns sustos e  manter o espectador acordado durante os 90 minutos de projeção.

 

E o final escancara todos os problemas do filme,  com atuações que causam vergonha em quem assiste, uma cena extremamente mal dirigida e um momento final para Holly que faz o recente e fraco Paixão Obsessiva, com Rosario Dawson, ser uma obra-prima da sétima arte -- comparação feita já que são finais praticamente iguais. Assim, Fica Comigo se mostra como mais um erro da Netflix quando o assunto é cinema, criando o filme que é uma mistura de longa-metragem trash com A Usurpadora. Agora, é esperar o lançamento de Okja para ver se a plataforma consegue se redimir. 

 

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