Crítica: 'Heal', na Netflix, é documentário que exige contraponto

19/02/2019

Deixam claro, na faculdade de jornalismo, que documentário não precisa de contraponto. É uma obra particular, geralmente partindo de um único ponto de vista, e faz com que outras opiniões se tornem desnecessária -- ainda que alguns grandes filmes do gênero não pensem duas vezes antes de trazer o "outro lado". Mas é preciso dizer: alguns documentários, por conta de ética e narrativa, exigem um contraponto, uma opinião divergente, um novo olhar sobre um problema. É o caso de Heal, documentário disponível na Netflix que avança em assuntos de medicina alternativa.

 

O filme, dirigido e apresentado por Kelly Noonan (que atuou, anteriormente, em filmes como A Face do Mal Busca Impagável), mostra os meandros e a influência de uma espécie de curanderismo do século XXI. São religiões, seitas e filosofias que fazem com que pessoas acreditem que energias ruins, por exemplo, causam câncer e problemas mentais -- a diretora chega a cometer o impropério de dizer que os seis graus de separação do Kevin Bacon se transformaram no "um grau de separação do câncer". Ou seja: é um filme catastrófico, revestido de zen-budismo, sobre as doenças globais.

 

Mas não estamos aqui para julgar a crença das pessoas ou acusar religiões e seitas -- ainda que, para citar um caso ilustre, o apresentador e jornalista Marcelo Rezende tenha apostado nesse tipo de tratamento contra o câncer, com o criminoso João de Deus, e morrido sem conseguir revertê-lo. Estamos aqui para julgar a qualidade do filme e a eficácia de sua mensagem. Vamos primeiro ao ponto inicial e depois partimos para a parte mais polêmica, que dá prosseguimento ao que foi dito lá no primeiro parágrafo.

 

Sobre a qualidade do filme: é razoável, no limite do brega. Heal não pensa duas vezes antes de colocar cenas bizarras, como a apresentadora comendo capim como se fosse um veado, ou efeitos especiais inesperados. Isso, de certa forma, acaba tirando o espectador mais sensível do filme. No entanto, quem já tem pré-disposição a gostar desse tema e de produções desse tipo não vai se incomodar. É algo que O Segredo fez, por exemplo. As entrevistas também são interessantes: amplas, alcançando vários níveis e vários tipos de personagens e especialistas. É completa para o que se propõe.

Mas aí chegamos no ponto polêmico: a eficácia da mensagem. Heal se propõe a contar a história de pessoas que curam e foram curadas através de uma espécie de energia da mente e do corpo. Alguns pacientes dizem que o câncer que tinham regrediu, outros dizem que melhorou o estilo de vida ao adotar um pensamento constantemente positivo. Nada contra quem pensa isso, que leva esse estilo de vida -- apesar das duas ressalvas exemplificando alguns problemas que isso possa vir a causar. O problema aqui está na forma que a mensagem é difundida, sem levar em conta as graves consequências.

 

Sem o tal do contraponto, como salientado lá no começo do texto, pessoas podem levar a crer que essa é a saída de suas aflições. Pessoas podem acabar largando remédios, desistir de médicos, de tratamentos que estejam causando algum benefício comprovado. Tratamento por meio das energias mentais não é comprovado cientificamente, não tem base empírica. São apenas casos isolados que parecem não ter confirmação além das palavras que são ditas ao vento pelos entrevistados. É, como foi dito, um zen-budismo que surfa na onda de incredulidade que varre todo o mundo.

 

É anti-ético, e pouco honesto, não trazer esse contraponto ao se tratar de um tema tão sensível. Não é obrigatório, claro, como já foi explicado. Mas é de bom tom. É importante para que pessoas mais maleáveis entendam que é algo sem garantia total de certeza. Que pode ser, de fato, um curanderismo. A diretora, se fosse boa, até poderia ter introduzido essas opiniões contrárias de forma sutil, juntando com a narrativa, é até pondo a seu favor -- como o ótimo Ser Tão Velho Cerrado fez recentemente, por exemplo. Faltou humildade, experiência, ética, honestidade. Não é correto isso, assim.

 

Com esse problema, a qualidade do documentário vai por água abaixo. Muitos podem -- e devem -- gostar. É a fé de cada um, afinal. Mas ninguém pode dizer que é justo colocar esse documentário no ar, para milhões de pessoas, sem problematizar, sem trazer o outro lado, sem questionar. Hoje, pessoas acreditam que mamadeiras de aspecto fálico são distribuídas em escolas. Acreditam que o Brasil vive uma ameaça comunista. Que partidos de esquerda bolam toda a maldade do mundo. É fácil, então, acreditar que uma pessoa qualquer, que se diz abençoada por Deus, pode curar seu câncer, sua depressão.

 

É algo com resultados desastrosos, que pode ir da morte até o abuso de curandeiros falsos como João de Deus -- que, aliás, faz uma participação aqui no documentário. É algo que precisa ser evitado ao máximo. Falta, aqui, severa responsabilidade da Netflix. 

 

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