Crítica: 'Homem-Aranha no Aranhaverso' capta essência do herói

07/01/2019

O Homem-Aranha era o personagem favorito de Stan Lee. Quando perguntavam o motivo ou pediam para que ele falasse mais sobre o "amigão da vizinhança", a resposta era sempre parecida: ele é um dos poucos heróis que pode ser qualquer pessoa. Eu. Você. Seu vizinho. Seu filho. Sua mãe. Basta entrar debaixo do manto vermelho -- ou da cor que for, dependendo da história -- e encarnar a bravura do personagem. É esse espírito que está presente ao longo dos quase 120 minutos de Homem-Aranha no Aranhaverso, novo filme da Sony que revisita a história do herói mais famoso da Marvel.

 

No entanto, há algumas diferenças quando comparado com o que o público está acostumado -- seja com a versão de Maguire, Garfield ou Holland. Primeiro: o filme é uma animação. Diferente, com uma técnica que imita a textura dos quadrinhos, mas ainda é uma animação. Segundo ponto: o verdadeiro protagonista não é Peter Parker. Afinal, por enquanto, o fotógrafo sobrinho da Tia May é o carro-chefe da Marvel, que voltou a ter os direitos criativos do personagem. Em Homem-Aranha no Aranhaverso, ele é um mero coadjuvante para dar espaço ao ótimo Miles Morales (Shameik Moore).

 

Adolescente, rebelde, negro, filho de latina. Ele foge de todos os preconceitos e estereótipos do gênero, sempre dominado por homens brancos e americanos, e dá um verdadeiro fôlego às histórias de super-heróis, que se amontoam e se repetem. Há fragilidades em sua personalidade, em seu caráter heroico. Morales, como deve ser, é só mais um de nós, mais um na multidão. É a essência que Stan Lee ressaltou a vida toda e que tinha sido deixada pra trás no herói, seja na cena do trem em Homem-Aranha 2 ou, mais recentemente, no entusiasmo juvenil de Parker com o Tony Stark.

 

A trama também é inventiva e original, apesar de confusa demais no início -- o que pode assustar algumas pessoas na sala de cinema, achando que vem uma bomba pela frente. Sem entrar em muitos detalhes, o que pode estragar a experiência: o Rei do Crime resolve criar um aparato que abre um portal para outras dimensões. Dele, saem cinco outros heróis que foram picados por aranhas radioativas -- um outro Peter Parker (Jake Johnson), Spider-Gwen (Hailee Steinfeld), Spider-Ham (John Mulaney), Peni Parker (Kimiko Glenn) e o excepcional Homem-Aranha Noir (Nicolas Cage; sim, ele!). 

E com todas essas possibilidades de fazer diferente, o trio de diretores Peter Ramsey (A Origem dos Guardiões), Bob Persichetti e Rodney Rothman se arrisca, ainda que sem ousar demais, e cria uma trama complexa e criativa. Primeiro no visual, que é uma explosão de cores e de cenários oníricos. Não é exagero dizer que a forma de contar a história, com a animação mais próxima das HQs, reinventa o gênero. É inventivo como Toy Story foi. E em seguida por apostar cegamente no roteiro de Phil Lord (Uma Aventura Lego), que cria essa trama inicialmente confusa e que, aos poucos, adquire um caráter de Vingadores de Homens-Aranha. É divertido e traz frescor para o gênero.

 

O grande ponto, porém, é a ótima sacada em saber misturar humor e ação, como se fosse a própria Marvel mandando na produção. Alguns personagens possuem piadas prontas e que funcionam de maneira natural e instantânea. É o caso do excelente Spider-Ham, que dá um tom cartunesco para a produção que agrada -- há referências à desenhos clássicos que emocionam. A narração de Cage como Homem-Aranha Noir é um achado. Sacada sensacional da produção e que, tranquilamente, renderia um filme solo do personagem. É divertido, tem piadas internas. É muito bom.

 

A conclusão de Homem-Aranha no Aranhaverso, que poderia derrubar a qualidade do filme com decisões erradas, também é acertada e não aposta cegamente numa continuação. Há uma conclusão para o filme, ainda que coisas estejam abertas para uma futura sequência. É um filme redondo, bem feito e interessante. Vale destacar, também, as duas cenas pós-créditos. A primeira é mais simples e emociona pra valer. A outra é uma das mais divertidas do cinema recente -- ganhando, até mesmo, do Deadpool matando o Ryan Reynolds enquanto ele assina o contrato pra Lanterna Verde.

 

E assim, Homem-Aranha no Aranhaverso é uma das produções mais surpreendentes e divertidas do ano -- que está só começando. Se a Sony tivesse mantido a data de lançamento pra 2018, já estaria circulando em listas de melhores do ano. Com a nova data, vai ter que se segurar durante mais tempo. Mas, ainda assim, é um frescor para o gênero. Algo que Deadpool fez recentemente. Uma mostra de que a Sony sabe fazer bons filmes com o personagem e que, apesar de Venom, deve vir mais coisa boa por aí. É só não desacreditar e ver o potencial nas histórias e nesse novo visual. Quem sabe, essa franquia de animação seja melhor do que a da própria Marvel com Tom Holland.

 

 

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