Crítica: 'Ilha dos Cachorros' traz boas e importantes reflexões

20/07/2018

É difícil ver Wes Anderson errar a mão. Dono de uma filmografia invejável, com longas como O Grande Hotel Budapeste Os Excêntricos Tenenbaums, o cineasta americano conta boas e importantes histórias por meio de produções plásticas e bem desenvolvidas. Ilha dos Cachorros, lançamento que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 19, volta a mostrar como o diretor continua como um dos mais importantes desta geração.

 

O longa-metragem se passa num Japão distópico, onde um governo totalitário resolve colocar todos os cachorros da região numa ilha de lixo para tentar erradicar uma doença canina que ameaça afetar os humanos. Nesse local, os antigos pets se unem em bandos e tentam sobreviver como podem, comendo lixo e perpetuando a espécie. Um dos cães que para lá são enviados é Spots (Liev Schreiber), companhia do pequeno Atari.

 

É nessa relação entre a criança e o cachorro que o filme se desenvolve. Afinal, Atari resolve ir para a ilha para encontrar seu companheiro -- numa jornada, aliás, muito parecida com a de Moonrise Kingdom -- com a ajuda dos cachorros Boss (Bill Murray), King (Bob Balaban), Rex (Edward Norton) e Chief (Bryan Cranston). Enquanto isso, o tio tirânico, o prefeito Kobayashi, tenta recuperar Atari para erradicar os cachorros de vez.

 

A beleza e a delicadeza da produção de Anderson são as mesmas de O Fantástico Sr. Raposo, sua primeira e única animação até Ilha dos Cachorros. Há alguns cuidados estilísticos que podem passar despercebidos, mas que chamam a atenção e enriquecem a história -- como a ausência de alguns tons quando a câmera é colocada sob o olhar dos cachorros. São pequenas coisas que conferem o estilo e a vivacidade contumaz de Anderson.

A dublagem também é um ponto alto. Schreiber, Murray, Balaban e Norton aparecem menos do que o esperado, mas mantém as falas numa espécie de único tom que faz sentido na história -- algo parecido com o que Anomalisa fezScarlett Johansson, Greta Gerwig, Anjelica Huston, Harvey Keitel, Yoko Ono e Tilda Swinton pouco dublam, mas seguram as pontas. É Bryan Cranston, porém, que brilha. Vai se tornar queridinho de Wes.

 

Entretanto, há um detalhe na trama -- uma dessas especificidades do cineasta -- que podem tirar grande parte do público da história: Wes optou por colocar Atari e seu tio falando em japonês, sem tradução. Muitos até argumentaram que é um caso claro de apropriação cultural -- uma bobagem, como na maioria das vezes. O grande problema, na verdade, é que não há como compreender a vilania do tio e os contornos emocionais de Atari.

 

A história, ao contrário da maioria dos filmes do cineasta, se torna distante, pouco palpável e, até mesmo, desinteressante. Ainda que haja um desejo do reencontro entre o cachorro e a criança, como é natural para qualquer ser humano com um pingo de empatia, não há aprofundamento nessa emoção. Atari, ainda que bem dublado por Koyu Rankin, não vai pra frente. O confronto com o tio, então, é desinteressante em todas as camadas.

 

O que acaba por chamar a atenção, então, é a forte metáfora por trás da trama, evocando a recente crise com refugiados e o medo do "estranho" -- a conhecida xenofobia que assola o dito mundo desenvolvido. É um metáfora narrativa bem dosada, inteligente e bem colocada.

 

Ilha dos Cachorros, então, é bem dirigido, bem produzido, com uma direção de arte impecável, desperta emoções primais e conta com um trabalho incrível de dublagem. Mas é difícil julgar roteiro e seus efeitos emocionais e de marco na filmografia de Wes Anderson. Não é um erro do cineasta, longe disso. Mas também está longe de ser uma produção marcante, como foi O Fantástico Sr. Raposo ou o mais recente, O Grande Hotel Budapeste.

 

Mas, sem dúvidas, vale a pena assistir e entrar no mundo do cineasta mais hipster  dessa geração.

 

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