Crítica: 'Inocência Roubada' analisa o impacto do abuso sexual

11/07/2019

Aos oito anos, Odette (Cyrille Mairesse) gostava de pintar e desenhar, como todo criança de sua idade. Eventualmente, ela também brincava com os adultos, por isso não recusou participar de uma "guerra de cócegas" com Gilbert Miguié (Pierre Deladonchamps), um homem mais velho, amigo de seus pais e pedófilo. Anos depois, Odette é uma adulta (Andréa Bescond) assombrada pelos traumas da infância, algo que ela vem tentando esquecer através da dança, atividade que ela pratica profissionalmente, e por terapia.

 

Esta é a trama de Inocência Roubada, filme que passou pelo Festival Varilux e que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta, 25. Dirigido pela dupla de estreantes Andréa Bescond e Eric Métayer, este é um daqueles longas difíceis de digerir. Brutal, ele mostra os detalhes que um abuso sexual na infância podem vir a causar na vida adulta -- aqui, no caso de Odette, dificuldade em se relacionar, vício em drogas e instabilidade profissional. Não é um tema simples e muito menos fácil a ser tratado nas telonas.

 

Bescond e Métayer, porém, parecem ter bebido de O Conto, produção recente do canal HBO, para arranjar subterfúgios. Mais leve do que o telefilme, Infância Roubada ameniza nas cenas de abuso e acaba se dedicando mais ao processo psicológico da protagonista. Para isso, a dupla de cineasta se vale de recursos cinematográficos inteligentes e que criam uma sensação de redenção no público -- a cena final, idêntica ao que é feito em O Conto, ajuda demais a elevar o emocional do filme e a trazer impacto pra história.

A força da trama também ganha força graças ao elenco. Ainda que Cyrille Mairesse não seja uma grande revelação infantil, ela leva bens as cenas pesadas e mostra como a perda de inocência é vista na infância. Vai bem, mas poderia ir melhor -- ainda que Deladonchamps (Um Estranho no Lago) traga uma força inexplicável às situações. Quem rouba toda a cena, porém, é Bescond, que também faz as vezes de diretora e roteirista. Ela sabe como viver a personagem e vai fundo, se entregando em todas as cenas.

 

Vale ressaltar, também, as boas atuações da dupla Karin Viard (Polissia) e Clovis Cornillac (Eterno Amor), como a mãe e o pai da protagonista. Com reações diferenciadas frente ao fato do abuso, eles brilham cada um a sua maneira. Mas Viard volta a se mostrar como uma das grandes atrizes da sua geração e que merece respeito máximo.

 

O grande ponto do filme, porém, é a maneira que a história é tratada pela dupla de diretores. Afinal, por não ser uma narrativa totalmente original, eles acabam compensando em planos longos, transições inteligentes e, principalmente, um roteiro que desconstrói alguma cenas, transitando entre o real e ficcional. A memória da protagonista se confunde com a própria história em si, fazendo com que o público viva a experiência terrível pela qual ela passou. Cada detalhe é um tijolo a mais nesse muro.

 

Assim, ao final, Inocência Roubada é um filme que fala muito mais do que abusos, pedofilia e coisas do tipo. Ele vai além da história e se aprofunda nas memórias, dores e angústias de alguém que teve que sofrer durante muito tempo, em silêncio. Pena que lembra demais O Conto, apesar das peripécias narrativas. Se não fosse por isso, estaria dentre os lançamentos mais impressionantes do ano. Assim, quem não viu ao filme da HBO ou gosta de imersões psicológicas, terá um bom filme a assistir no mês de julho.

 

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