Crítica: 'Inocente', da Netflix, é série reflexiva, mas arrastada

20/12/2018

A série Inocente: Uma História Real de Crime e Injustiça começa seu primeiro episódio de forma marcante. Numa pequena cidade dos Estados Unidos, nos anos 1980, dois crimes brutais ocorreram com um pequeno intervalo de tempo entre eles. No primeiro, uma jovem foi encontrada morta, de maneira chocante, depois de ser vista discutindo em um bar. No outro, a jovem balconista de uma loja de conveniência é vista saindo com um homem do local de trabalho para nunca mais aparecer. Sem rastros. Foi o bastante para abalar a tranquilidade da pequena Ada, que entrou no meio deste caos midiático.

 

O mais chocante, porém, viria a ser percebido anos depois, quando quatro homens já estavam condenados pelos crimes -- uma dupla para cada uma das mortes. Ao contrário do que a cidade e as famílias das vítimas imaginavam, o quarteto começou a apresentar sinais de que não estavam tão ligados ao crime como se esperava. Novos testes de DNA foram feitos, revelações obscuras sobre o procedimento da política e da procuradoria foram desarquivados e até um livro de John Grisham foi escrito sobre o caso. O que teria acontecido para um erro tão absurdo como esse ter sido cometido?

 

É nisso que se debruça Inocente, nova produção documental original da Netflix dividida em seis episódios. Dirigida por J. Clay Tweel (A Luta de Steve), a série conversa com pessoas envolvidas nos dois casos para mostrar como um erro da Justiça pode ser fatal e prejudicial. São dezenas de depoimentos, e de imagens de arquivo, que vão construindo uma narrativa interessante e reflexiva sobre as deficiência desse sistema -- e como ele necessita de reformas. Até mesmo um dos condenados injustamente, ainda preso, dá depoimentos que ajudam a compreender melhor como a situação chegou ali.

A produção da série, aliás, dá um show à parte. Com o apoio da Netflix por trás, Inocente reconstrói alguns dos capítulos narrados de maneira elegante, sensível e discreta. Mas sempre com um apuro narrativo interessantíssimo. Há uma passagem que fala sobre a dualidade de uma informação sobre o vestido que uma das garotas usava, por exemplo, e que é representada na tela de maneira inteligente. Os atores em cena também se parecem com as pessoas dando depoimentos. O resultado geral é bom.

 

Sobre os depoimentos, aliás, que ótimo trabalho de edição e de roteiro. São muitos, mas muitos personagens envolvidos na trama. E, ainda assim, Inocente consegue dar atenção para todos. Cada um faz sua contribuição, sem gorduras nas falas. Até mesmo John Grisham, o mais famoso dali, não aparece tanto quanto seria imaginado. Houve cortes independente da figura, focando apenas na importância das informações que ali foram ditas ou reveladas. Com isso, eleva-se e muito o nível geral da produção.

 

Só há de se destacar que, com tantos depoimentos e com uma linha temporal não muito limpa, Inocente acaba por ser confusa e arrastada em alguns momentos -- por mais que a linha de acontecimentos seja repetida à exaustão. Além disso, ao fim, fica um pouco exagerada a duração de seis episódios. Os dois últimos são bem menos interessantes do que o restante da série e poderiam ser resumidos em um só. Assim, com bom humor, Inocentes deveria ter cinco capítulos apenas. Pensando criticamente, quatro.

 

Ainda assim, é uma série interessantíssima para refletir sobre a situação do sistema carcerário -- e não só no EUA, como em todo o mundo. O senso de impotência perante as histórias apresentadas também é poderoso, como já foi visto em filmes como A Vida de David Gale Papillon. É, assim, uma produção bem feita, bem dosada e bem produzida, apesar dos exageros já ressaltados. Vale assistir. É rapidinho e fica uma boa lição.

 

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