Crítica: ‘Jogo Perigoso’, da Netflix, capta essência de Stephen King

16/10/2017

Em seu livro Sobre a Escrita, o escritor Stephen King apontou que ele consegue produzir dois tipos diferentes de histórias. A primeira é mais expositiva e expansiva, permitindo que o leitor entre numa torrente de acontecimentos macabros -- como Cujo, It, a Coisa e até Sob a Redoma. E também escreve histórias mais íntimas e introspectivas, como Rose Madder, O Iluminado e Jogo Perigoso. Este último tipo, sem dúvidas, é o mais difícil de ser adaptado às telonas.

 

No entanto, a Netflix realizou um feito e tanto com a adaptação de Jogo Perigoso, produção original da empresa e que chegou ao serviço de streaming na última semana. Com elenco pouco conhecido, o longa conseguiu captar a essência da história de King, fazendo com que todo sadismo do livro fosse transposto para a tela. Assim como acontece ao virar a última página, difícil sair impassível ao finalizar o último minuto do filme original da Netflix. É Stephen King em essência.

 

A história é sobre um casal (Bruce Greenwood e Carla Gugino) que está passando por um momento turbulento no casamento. Buscando reconciliação, eles partem para uma casa de campo e exploram novas possibilidades sexuais. Numa delas, Gerald, o marido, algema a esposa, Jessie, na cabeceira da cama. Ele, porém, sofre um ataque cardíaco e a mulher fica algemada à cama sem ter o que fazer e para quem pedir ajuda, iniciando um período de pesadelo.

Dirigido pelo irregular Mike Flanagan (Hush: A Morte Ouve e O Sono da Morte), o filme tem um ritmo enervante. Sem perder tempo com apresentações, o espectador logo é jogado na história e conhece os personagens aos poucos, entrando na mente de Gerald e Jessie sem pressa -- ainda que a produção seja de média duração, com pouco mais de 100 minutos. O

recurso usado para o filme não cair num marasmo escapista também é interessante, dando ritmo a produção.

 

Além disso, o roteiro e a direção trabalham juntos para manter sequências inteiras do livro com recursos interessantes de audiovisual. O suspense não existe apenas por existir, sendo fundido com histórias dramáticas e passagens verdadeiramente perturbadoras. Algumas cenas -- como uma que envolve os pés da personagem -- dão medo, sem recorrer ao jumpscare óbvio e sem grande inventividade, como já foi visto em outros trabalho de Flanagan.

 

Os erros, que são pontuais e não atrapalham a experiência como um todo, parecem ser fruto da dificuldade de adaptação do livro. A introdução à figura do Homem do Luar, por exemplo, é feita de maneira um tanto quanto corrida e este arco do roteiro é finalizado de maneira um tanto quanto corrida e com uma cena que, para muitos, pode soar surreal. O filme termina numa nota negativa, ainda que toda a experiência tenha sido impactante para a audiência.

 

A experiência final de Jogo Perigoso, então, é extremamente positiva e mostra o acerto da Netflix em investir em adaptações de livros -- como também é visto no maravilhoso e recém lançado Nossas Noites. Visceral, provocante, perturbador, sádico. São vários sentimentos ao  final da projeção e que fazem esta nova adaptação de um livro de Stephen King ficar ao lado, em termos de qualidade, de It, a Coisa e bem, bem, bem longe de A Torre Negra e O Nevoeiro.

ÓTIMO 

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