Crítica: Jonah Hill faz ótima estreia como diretor com 'Anos 90'

31/05/2019

Stevie (Sunny Suljic) é um menino que não encontra carinho e afeto em casa. O irmão (Lucas Hedges) o agride frequentemente, enquanto a mãe (Katherine Waterston) não parece se importar muito com o que o menino, pré-adolescente, faz no seu tempo livre. Dessa forma, Stevie acaba encontrando seu espaço nas ruas. Mais especificamente, em um grupo de adolescentes skatistas que o apresentam para um mundo complexo de drogas, bebidas, iniciação sexual. Uma vida sem limites. Que chega atropelando o rapaz.

 

Esta é a trama de Anos 90, filme que mistura nostalgia e crítica social numa direção elegante do astro Jonah Hill, que faz sua estreia atrás das câmeras. Estiloso, o filme acerta desde a primeira cena. As proporções do vídeo são diferentes, parecendo caseiro -- o motivo, afinal, é explicado depois. E as sequência começam com situações banais. O menino corre, apanha do irmão, brinca com halteres, vai almoçar com a família numa reunião estranhíssima. Rapidamente, Hill constrói todo o cenário dessa história.

 

Depois de construído esse bom alicerce inicial, são vários os pontos positivos que se atropelam na trama. Primeiro: a reconstrução da década de 1990 é primorosa. Tudo parece ser pensado com cuidado. Seja o telefone, a televisão, as roupas, as referências da cultura pop ou até a ausência de uma comunicação extensa promovida pela internet. É, afinal, uma década interessante, no qual o mundo está prestes a entrar numa explosão de conexão, mas ainda vive de maneira analógica. Difícil não mergulhar ali.

Outro aspecto que joga a favor de Hill são as atuações. Katherine Waterston (Animais Fantásticos) faz sua primeira grande atuação nas telonas, brilhando em momentos certeiros. Lucas Hedges (O Retorno de Ben e Boy Erased) volta a confirmar seu nome como uma das grandes promessas do cinema. Mesmo sendo um coadjuvante que aparece pouco, o ator mostra força dramática. O trio de amigos do protagonista também está bem. Com destaque para Ray (Na-kel Smith) e para Fuckshit (Olan Prenatt).

 

No entanto, o filme é de Sunny Suljic (O Sacrifício do Cervo Sagrado). Ele, mesmo com pouca idade, rouba a cena quando aparece e corresponde à carga dramática nos momentos necessários. Uma cena dentro de um carro, depois da personagem de Waterston descobrir um fato sobre o filho, é de partir o coração. Ambos se saem muito bem e brilham. Não seria injusto se Suljic fosse lembrando nas premiações no começo de 2020. Seu papel é difícil, complexo, desafiador. Mas, mesmo assim, ele vai além.

 

Afinal, o roteiro é todo dedicado ao personagem Stevie. Há um arco complexo, cheio de meandros, que faz com que o protagonista seja carregado de uma ponta à outra do filme numa grande carga de transformação. Compare a primeira cena do longa com a derradeira. Há uma grande diferença ali de comportamento e de olhar, por mais que o personagem continue sendo indefeso e precise da ajuda de amigos, da família. As coisas mudam, mas nem tanto. Que ótimo trabalho de Hill como diretor e roteirista!

 

Pena, porém, que algumas questões acabem sendo deixados de lado, ainda que propositadamente pelo roteiro. A mãe, por exemplo, começa o filme falando sobre um relacionamento, mas isso não vai além. Não é o foco do filme, claro, mas fica um vazio. E poderia ter abordado um pouco mais a relação com o irmão. De resto, Anos 90 acerta em cheio ao retratar uma geração dentro de uma década, ainda tão próxima de nós, mas tão carregada de nostalgia. É um Kids desse novo público que vai aos cinemas. Filmão que, por pouco, muito pouco, não levou as cinco estrelas aqui. Quase que mereceu.

 

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