Crítica: 'Juliet, Nua e Crua' é comédia romântica além do óbvio e do clichê

06/10/2018

Nick Hornby é um autor que consegue criar histórias leves e divertidas, sempre com um tom de comédia romântica além dos clichês. Foi assim com Alta Fidelidade, livro que virou um clássico nas mãos do diretor Stephen Frears e com o astro John Cusack; e Febre de Bola, delicioso longa-metragem de David Evans com Colin Firth e Mark Strong. E agora, mais um filme baseado nos inspiradores romances de Hornby chega às telas:  Juliet, Nua e Crua, comédia romântica de Jesse Peretz com Ethan Hawke e Rose Byrne.

 

A trama, desta vez, acompanha a vida de Annie (Byrne), diretora de um museu no interior da Inglaterra e que se vê presa num relacionamento desgastante com Duncan (Chris O'Dowd), um professor obcecado pelo obscuro roqueiro Tucker Crowe (Hawke). A coisa desanda de vez, porém, quando o marido se vê refugiado nos braços de uma colega de trabalho que apoia sua obsessão pelo músico, ao mesmo tempo que Annie, de maneira curiosa e improvável, acaba engatando longas conversas com o próprio Tucker.

 

A partir daí, o cineasta Jesse Peretz (O Idiota do Meu Irmão) e os roteiristas Evgenia Peretz (O Idiota do Meu Irmão), Jim Taylor (Jurassic Park III) e Tamara Jenkins (A Família Savage) tecem uma narrativa de altos e baixos, mas com um tom delicado e fluído que envolve os três personagens principais. Mantendo a essência da história de Hornby, há elementos comuns das comédias românticas -- traição, marido difícil de lidar e amante em potencial com características perfeitas -- com boas desconstruções.

 

Afinal, um dos grandes atrativos de Alta Fidelidade, por exemplo, é a quebra da expectativa e a presença de um homem (Cusack, no caso) como protagonista de um gênero dominado por mulheres. Aqui, ainda que haja os clichês básicos da trama, eles vão sendo quebrados pouco a pouco e com inteligência. Tucker, por exemplo, logo se mostra imperfeito e com falhas, como filhos espalhados pelo mundo e falta de disciplina. Enquanto isso, Annie vai se mostrando cada vez mais forte e independente. O que é óbvio, inicialmente, ganha contornos mais complexos e profundos pelo roteiro.

Juliet, Nua e Crua chega num momento em que a servidão de Vivian em Uma Linda Mulher, por exemplo, já não é mais enxergada com naturalidade. Ainda que existam muito filmes assim por aí, e com grande aceitação pelo público, é um movimento que deve ganhar ainda mais força nos próximos anos. Sorte do filme que antever isso, como é o caso de Juliet, Nua e Crua, que deve manter sua relevância por muitos anos. É um ponto altíssimo do longa-metragem e que, de alguma forma, eleva sua qualidade geral.

 

Outro ponto alto é o elenco, afiadíssimo. Ethan Hawke, que ultimamente tem pego papéis de personagens mais fechados, volta à boa forma da trilogia Antes com bons modos e muita emoção no papel. Pode ser uma nova virada em sua carreira. Rose Byrne (Pedro Coelho) volta a encantar com um papel extremamente real, sensível e sem excessos. Chris O'Dowd (O Paradoxo Cloverfield) é o mais apagado de todos, mas consegue entregar alguns momentos de diversão genuínos. É o escape cômico daqui.

 

Vale destacar, também, a boa mistura de música e trama, como, novamente, já foi feito em Alta Fidelidade. Ajuda a dar o tom e a trazer mais emoções para fora das telonas.

 

O que tira um pouco a força do longa-metragem é o ritmo, por vezes, lento e desinteressante. O início do filme, por exemplo, conta com um excesso de narração por parte dos personagens de Hawke e Byrne, que trocam e-mails sem parar. É maçante e cansativo vê-los falando tanto em imagens paradas. Se Jesse Peretz não fosse tão protocolar e deixasse a criatividade fluir um pouco, soluções fáceis de jogo de câmera e de narrativa poderiam ajudar a deixar essas passagens mais inteligentes e atrativas.

 

Ainda assim, Juliet, Nua e Crua é uma comédia romântica além dos clichês, da obviedade e do conformismo. Com uma história leve e divertida, consegue trazer um bom entretenimento ao público ao mesmo tempo em que provoca e faz pensar. Falta um pouco de ritmo em seu terço inicial e, talvez, algumas questões mais profundas a serem tratadas -- como a irmã de Annie, tão sem sentido ali na história. Mas é mais um bom filme para a conta de Hornby, que continua a dominar com excelência o gênero.

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