Crítica: 'Legalidade' é drama histórico que peca pelo excesso

12/09/2019

Os primeiros vinte minutos de Legalidade são de arrepiar. Jânio Quadros acabou de renunciar e o Brasil fica em polvorosa. Jango assume ou não assume? Afinal, ele está na China, não tem a simpatia dos americanos e os militares já estão de sobreaviso. No Rio Grande do Sul, enquanto isso, o governador Leonel Brizola (Leonardo Machado) começa a se articular para evitar o golpe. Põe armas nas mãos dos cidadãos, fala com setores que o apoiam. E começa o movimento político e social que dá título ao filme em questão.

 

No entanto, o diretor Zeca Brito (A Vida Extraordinária de Tarso de Castro) parece não aguentar ficar só isso. Ao invés de fazer um Getúlio desse pequeno trecho da vida do político gaúcho, o cineasta decide expandir. Conta a história de um triângulo amoroso sem sal entre a espiã americana Cecília (Cleo Pires), o jornalista Tonho (José Henrique Ligabue) e Luís Carlos (Fernando Alves Pinto), irmão do outro rapaz. Conta, também, a busca da filha (Letícia Sabatella) dessa espiã, já em 2004, pela mãe desaparecida.

 

É uma miscelânea de tramas, histórias e personagens desinteressantes que choca. Difícil entender como Zeca e Leo Garcia, que fizeram o excelente documentário sobre o jornalista Tarso de Castro, não notaram isso durante a escrita do roteiro. Enquanto a trama sobre Brizola é envolvente, interessante e, veja só, moderna, o restante é chato, pouco criativo, clichê, óbvio. O desenvolvimento de personagens, quando há, é raso. Há pouca espiritualidade no que é escrito e visto na tela. Tudo é muito mais do mesmo.

 

Há um ar novelesco brega ao redor de tudo isso, ainda por cima. Há ardentes cenas de sexo que surgem aqui e ali, sem motivo algum. Há efeitos sonoros e trilhas usadas para ressaltar emoções, encontros de personagens, etc. Há cenas claramente inspiradas em Casablanca. É até bonito ver a homenagem, mas onde que fica o sentido disso tudo?

E pra piorar, a maioria do elenco não corresponde. Cleo Pires (Mais Forte que o Mundo), novamente, se mostra como uma atriz extremamente limitada. Acerta aqui e ali, mas no geral não consegue se desenvolver. José Henrique Ligabue (Raia 4) é esquecível e Fernando Alves Pinto (Nosso Lar) está absolutamente decepcionante. Seu personagem é artificial, pouco crível e chato. Muito chato. Dessa turma toda, só Leonardo Machado salva. Infelizmente, este foi seu último trabalho antes de uma trágica morte em 2018.

 

Ou seja: o filme acaba apostando numa trama paralela à Legalidade que não interessa, não é bem escrita, não é bem atuada. Não funciona! A decepção vai se alastrando ao longo dos 120 minutos de duração do longa-metragem, que parece durar dois dias. O que é interessante, de fato, acaba servindo apenas como cenário, como contexto para o romance sem graça desse trio. Pra que isso? Seria muito, muito mais interessante se o filme tivesse se atido ao fato histórico, ainda pouco representado nos cinemas.

 

Aliás, isso pode ser pontuado como algo positivo. Infelizmente, há poucos épicos nacionais. Poucas histórias sobre o Brasil, sobre o povo. Produções assim devem existir mais. Só assim para despertar uma identidade nacional cada vez mais adormecida.

 

Além disso, o que salva em Legalidade é a trama de Brizola. Ela é atual, moderna. Traz discussões necessárias ainda hoje, mais de 50 anos depois. Teria sido tão melhor se essa fosse a trama do filme todo. Poderia até ter Cleo, Fernando Alves Pinto e companhia. Podia colocar um romancezinho entre uns coadjuvantes. Mas coisa bem rápida, pra servir de contexto. E não o contrário. Da maneira que ficou, sobrou decepção. Ainda bem que se salvam uns 30 minutos com Brizola. Se não fosse isso, que desastre.

 

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