Crítica: 'Los Silencios' é filme espiritual sobre injustiças

08/04/2019

Fugindo de um conflito armado, Amparo (Marleyda Soto) e seus dois filhos chegam a uma pequena ilha no meio da Amazônia, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. O trio, porém, já chega na nova moradia machucado. Afinal, o pai (Enrique Diaz) e uma filha do casal desapareceram em um acidente. Ninguém sabe se morreram de fato, se foram raptados, se fugiram. Mas, certo dia, o pai reaparece na nova casa de palafitas e a família passa a ser assombrada por esse estranho segredo que os acompanha.

 

Esta é a trama de Los Silencios, filme que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 11, após uma boa jornada de premiações mundo afora -- inclusive em Cannes, onde participou da quinzena dos realizadores. O longa, porém, não é uma produção de fácil absorção. Faz jus aos festivais independentes por onde passou. Dirigido por Beatriz Seigner (Bollywood Dream), Los Silencios mistura misticismo, espiritualidade e uma forte crítica social e política a algumas situações que acontecem na América Latina.

 

Para isso, o roteiro, escrito pela própria Seigner, não tem medo de esconder um punhado de informações do espectador e de contar certas mentira ao longo 88 minutos de projeção. Superficialmente, a trama é simples -- uma mãe de família que tenta sobreviver em ter muitos recursos ou o apoio de pessoas ao seu redor. No entanto, ao ir mais afundo, encontra-se um terreno fértil de ideias que às vezes funcionam, às vezes falha. Tudo, aqui, depende muito da condução da cineasta e dos atores em cena.

Há, por exemplo, esse ar místico que tenta surpreender e dar uma reviravolta na trama. A ideia é muito boa, mas mal executada. A coisa acaba ficando mais artificial do que deveria e a tal reviravolta pode ser sacada muito antes, fazendo com que a trama perca força. O elenco também varia: Enrique Diaz (O Mecanismo) é totalmente descartado pela história; mas Marleyda Soto (A Terra e a Sombra) segura as pontas e impede que tudo desande. As crianças estão bem, mas nada demais. O menino é chatíssimo, além disso.

 

Dessa forma, com erros e acertos, a áurea mística do filme acaba perdendo um pouco de força e pode tirar o espectador do filme. A ideia, como dito, é muito interessante e poderosa, dialogando com os "fantasmas", no sentido metafórico, que perambulam pela América Latina inteira. Mas a ideia acaba ficando pra trás em alguns momentos e o drama humano da protagonista chama mais a atenção. Parece que faltou dosar melhor.

 

O que salta aos olhos, e acaba roubando a atenção, é o visual belíssimo do filme. A direção de arte de Marcela Gómez Montoya (Sal) é espetacular. Mais do que um adereço da trama, o visual do que está sendo contado acaba se tornando um personagem ativo dentro de Los Silencios. Difícil lembrar de outro filme que tenha usado esses atributos de maneira tão positiva. Não é à toa que a tal reviravolta se ancora totalmente na cor e no visual dos personagens, que significam muito mais do que aparenta inicialmente.

 

Enfim. Los Silencios é um filme interessante, com boa intenção, mas que morre na praia em diversos sentidos. A mensagem espiritual, que beira o místico, acaba sendo subutilizada num roteiro por vezes confuso, que chega a ter quatro deixar para o final da película. Seigner conta uma bela história, sem dúvidas, mas parece que não chegou lá. Faltou coração, talvez? Ou mais coesão narrativa. Difícil saber. O fato é que é um filme que não te preenche totalmente ao final da sensação. Daqui um tempo, será esquecido.

 

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