Crítica: 'Minha Fama de Mau' é boa cinebiografia de Erasmo Carlos

18/02/2019

Minha Fama de Mau, cinebiografia do cantor e compositor Erasmo Carlos, não padece de um dos principais problemas dos filmes desse gênero: condensar décadas em apenas duas horas. Ainda que o longa passeie por vários anos da vida do Tremendão, é um retrato mais reduzido que começa no início da vida adulta e vai até determinado ponto da carreira. Nada a mais, nada além. No entanto, Minha Fama de Mau padece de um outro problema complicado do cinema nacional: a falta de um estilo próprio do realizador, fazendo com que esta cinebiografia se torne apenas "mais uma na multidão".

 

A trama, como já ressaltado, acompanha alguns anos na vida de Erasmo (Chay Suede), indo desde o aprendizado dos primeiros acordes de violão, passando pela estreia no programa da Jovem Guarda com Roberto Carlos (Gabriel Leone) e Wanderléa (Malu Rodrigues) e indo até o encontro de seu verdadeiro amor, Nara (Bianca Comparato). É uma trajetória interessante, ponteada de bons momentos, e que emociona -- principalmente pelo acerto do diretor, Lui Farias (Os Porralokinhas), em colocar músicas inteiras de Erasmo para tocar na tela, como Festa de ArrombaGatinha Manhosa e afins.

 

No entanto, apesar de vencer o primeiro grande problema das cinebiografias, Farias logo cai nesse outro ponto: a falta de estilo. O longa-metragem começa de maneira extremamente diferenciada, com quebra de quarta parede, edição rápida pouco linear e com o uso de um estilo gráfico baseado em quadrinhos. Apesar deste último ponto não fazer muito sentido no geral, é algo que dá vitalidade para a trama e logo de cara já chama a atenção. No entanto, o cineasta aos poucos vai abandonando esse forma de filmar e adota decisões convencionais. Uma pena. Não se diferencia de nada, no final.

Mas, ainda assim, Minha Fama de Mau tem elementos que chamam a atenção e o diferenciam de outras cinebiografias lançadas recentemente, como a covarde Elis. Primeiro, o elenco: Chay Suede (Rasga Coração) não tem absolutamente nada a ver com Erasmo e nem é um grande ator, mas consegue entrar no papel e diverte; Leone (Onde Nascem os Fortes) encaixa perfeitamente como o chato Roberto Carlos e surpreende; Malu (Confissões de Adolescente), infelizmente, está mais apagada por conta de problemas e decisões de roteiro, mas encaixa na personagem. E vale questionar: quem teve a ideia de pôr Bruno de Luca como  Imperial? É péssimo. Tira o público do filme.

 

O ritmo de Minha Fama de Mau, porém, é interessante e tem decisões acertadas de Lui. Há muitas cenas musicais, com músicas inteiras sendo tocadas na tela, mas não atrapalham o andamento. Pelo contrário: com elas, o diretor consegue avançar na história de maneira inteligente, rápida e ousada. Na maioria das vezes, não são apenas músicas para entreter e fazer cantar. São canções que servem a narrativa e fazem sentido ali dentro da história que está sendo contada -- isso, aliás, é algo que poderia ter sido aproveitado esteticamente pelo diretor, mas que é completamente dispensado.

 

Minha Fama de Mau é um filme que tinha muito potencial nos seus primeiros trinta minutos, mas que vai ganhando contornos banais com o passar do tempo. Falta mais estilo e identidade própria, ainda que outros erros comuns desse tipo de filme não sejam cometidos. É, enfim, um filme ideal para quem quiser se aprofundar na vida de Erasmo e na sua relação com Roberto, se divertindo com as memórias da "década de arromba" e se emocionando com as músicas. Bem atuado, com atores que sabem cantar sem imitar e com uma história bem contada. Poderia ser melhor, mas já satisfaz.

 

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