Crítica: 'Minha Obra-Prima' é comédia argentina divertida e provocativa

28/03/2019

Que o cinema argentino é maravilhoso, não há dúvida. Mas vendo as produções mais recentes do País, outra certeza começa a chegar: de que a Argentina teve seu ápice com Relatos Selvagens e, desde então, os grandes filmes se tornaram mais raros e restritos. É preciso pinçar com cuidado as melhores produções que surgem do País hermano. E boa notícia para quem está lendo este texto: há um ótimo filme, que chega ao Brasil nesta quinta-feira, 28, que entra nessa boa leva. É Minha Obra-Prima.

 

Dirigido por Gastón Duprat (dos ótimos O Cidadão Ilustre O Homem ao Lado), o longa-metragem acompanha a amizade entre o pintor Renzo Nervi (Luis Brandoni) e o galerista Arturo Silva (Guillermo Francella). Amigos há anos, a dupla começa a ver a amizade estremecer quando o artista começa a falhar com seus compromissos e a não entregar mais bons quadros. O empresário, enquanto isso, se vê preso num dilema de romper a relação comercial e abalar a amizade ou continuar a ter prejuízos com ele.

 

O que se desenrola a partir daí é uma série de situações de bons e maus momentos. Renzo Nervi cada vez mais vê sua arte sendo contestada, enquanto Arturo fica mais e mais pressionado a aderir à arte moderna. É uma situação que rende momentos verdadeiramente hilários, como a sequência em que Renzo atira em um de seus quadros ou, então, quando entra em confronto direto com um crítico de arte. Dá para rir muito com as situações surgindo. Tudo, porém, muito sutil, delicado, sagaz e irônico.

Grande parte do mérito do filme está com a dupla principal de atores. Guillermo Francella já vem se destacando há algum tempo, em filmes como O Clã O Segredo dos Seus Olhos. Aqui, ele dá um show como um galerista que não consegue encontrar o tom ideal de seu trabalho. O desespero de alguns momentos é visível em sua expressão. Já Luis Brandoni (Esperando la Carroza) acerta como um tipo sarcástico, claramente de saco cheio da vida, e que não encontra refúgio nem mais nas artes e em seu quadros.

 

Se ficasse nessa comédia, o filme já seria bom -- não ótimo, nem espetacular; apenas bom. Mas Duprat, que assina o roteiro com seu irmão, vai além e consegue carregar a história de uma provocação artística inusitada. Ao invés de ficar só no impasse entre os dois, Minha Obra-Prima traz uma boa reflexão sobre o que é a arte e a crueldade intrínseca que há no mercado de pinturas e afins. É uma virada de roteiro interessante, que demora a pegar no ritmo, mas que funciona e traz um outro olhar sobre a história.

 

Dessa maneira, Minha Obra-Prima é um filme divertido, inteligente e que traz boa reflexão. Excelente para quem estava com saudades do humor argentino e das suas boas ramificações. Claro, é preciso gostar de suas particularidade para aproveitar a obra, como o humor sarcástico, as piadas inteligentes e que passam quase batidas, e os diálogos rápidos e atrevidos. Se gostar disso, é um prato cheio. Não chega a ser uma obra-prima, claro. Mas sem dúvidas te fará rir, pensar, se divertir e passar o tempo.

 

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