Crítica: 'Missão 115' é filme urgente e necessário

23/04/2018

É curioso: o período da Ditadura Militar no Brasil foi tema de dezenas de documentários, como O Dia que Durou 21 AnosEm Busca de IaraUma Longa Viagem, Cidadão Boilesen e o incrível Cabra Marcado pra Morrer. No entanto, ainda assim, o assunto não se esgota, achando espaço para ampliar a discussão e mostrar o quão profundas foram as alterações feitas pelo regime. Um novo exemplo é o filme Missão 115, que integra a programação do É Tudo Verdade 2018.

 

A história do longa-metragem, comandado pelo experiente Silvio Da-Rin (Hércules 56) foca num acontecimento obscuro da Ditadura: o atentado no Riocentro, quando dois militares explodiram uma bomba do lado de fora do centro de eventos durante as comemorações do Dia do Trabalho. Isso, então, acabou gerando uma crise absoluta no governo Figueredo. Afinal, a bomba explodiu no colo de um dos militares, mas o regime cismava em afirmar que foi um ato da esquerda.

 

Da-Rin, então, examina, com cuidado e uma quantidade enorme de entrevistas, todos os acontecimentos que envolveram a tal Missão 115. Na tela, é exibido com desenvoltura e um ritmo solto tudo que levou os militares a conduzirem o ato terrorista e, inclusive, as consequências daquilo. Não é um filme, então, que fica preso num único acontecimento, permitindo-se passear pela história e fazer um panorama geral para o espectador, deixando as coisas bem mastigadas.

 

O cineasta, apesar de ter uma ideologia muito bem definida, também não se furta em buscar entrevistados de todas vertentes e opiniões. Há especialistas que concordam que o impeachment da Dilma não foi golpe, enquanto outros a apoiam totalmente -- e sim, isso tem relevância para a produção; outros acham que a Lei da Anistia não deve ser revogada, enquanto alguns protestam pelo seus efeitos. É um panorama interessante e que, mesmo tendo as ideologias do cineasta muito claras na tela, não deixam afetar o andamento da investigação. 

As imagens recuperadas de arquivo também facilitam a imersão no que está sendo dito. Muito bem produzido, o documentário consegue mesclar as opiniões e os depoimentos dos entrevistas com fatos e acontecimentos palpáveis, que apareceram nas capas de revistas e manchetes de jornais. O espectador, então, não fica preso apenas num único viés, podendo ver a coisa de um jeito mais real.

 

No entanto, no âmago de construir a realidade para a audiência, Da-Rin derrapa no único grande erro do filme: a ficcionalização de alguns acontecimentos. Não dá pra entender. Em alguns pontos, é exibido um ator de meia-idade dentro de um sala pequena e repleta de clichês -- como a lâmpada que balança e o cinzeiro sempre cheio -- que parece tirada de um filme americano. Algumas coisa ali não ornam com a narrativa e deixam tudo muito estranho. Até hoje, nunca vi uma ficcionalização que deu certo, sendo o último grande erro do documentário de Cora Coralina.

 

Mas, ainda assim, Missão 115 é um filmaço. Outros merecem o prêmio principal do É Tudo Verdade -- Ex-Pajé, principalmente. É inegável, porém, que Missão 115 tem uma trama urgente e necessária para um momento da história do Brasil que vê vozes vindas da escuridão e que clamam pela volta do regime ditatorial de militares. Essas pessoas, sem dúvidas, precisam ver esse filme para colocar a mão na consciência e entender que o buraco é bem mais embaixo. 

* Este filme foi assistido durante a cobertura especial do festival de documentários É Tudo Verdade 2018

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