Crítica: 'Não Mexa com Ela' expõe o abuso sexual e de autoridade

05/08/2019

Orna (Liron Ben-Shlush) é uma dona de casa, mãe de três filhos, que decide ajudar nas contas. Afinal, o marido (Oshri Cohen) acabou de abrir um restaurante que ainda não está gerando receita e os gastos estão começando a ficar apertados. E assim, numa dessas oportunidades do destino, a protagonista acaba reencontrando Benny (Menashe Noy), um antigo conhecido, dono de uma construtora de luxo, que está procurando alguém para trabalhar como sua assessora. O problema é quando a oportunidade passa a virar um pesadelo nas mãos do chefe, que atravessa os limites da relação saudável.

 

Esta é a trama de Não Mexa com Ela, filme da cineasta Michal Aviad (Dimona Twist) que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 8. Moderno e atual, o longa-metragem entra numa boa leva de produções que interpretam essa realidade que mulheres enfrentam ao redor do mundo. No entanto, mais do que simplesmente mostrar um ambiente tóxico de trabalho, o filme mescla importantes discussões sobre sociedades machistas, progressão de como o abuso começa a aparecer na rotina e comportamento em Israel.

 

Sobre este último ponto, aliás, é interessante ver um contraponto ao que é visto comumente no cinema israelense. Geralmente, os personagens naturais do País são vistos de forma heroica e se contrapõem ao resto do "oriente bárbaro" -- um exemplo, apesar de ser produção americana, é o recente filme Missão no Mar Vermelho. Assim como os americanos, israelenses parecem sempre ser um ponto de inflexão da vilanização do oriente. Aqui, porém, Michal Aviad mostra o outro lado dessa sociedade.

Afinal, como em qualquer outro lugar, há as pessoas boas e más. Há ambientes de trabalho excelentes e outros que causam verdadeiro prejuízo mental. Filmes honestos são os que não caem na fragilidade de polarizações baratas. E este é um bom caso.

 

O que salta aos olhos, também, é o bom trabalho da dupla de protagonistas. Liron Ben-Shlush (Ao Seu Lado) trabalha bem na dualidade de viver o sonho de ter um emprego que paga bem e de estar num pesadelo em que seu chefe é um abusador covarde. Suas emoções são sentidas em pequenos gestos, olhares, sorrisos cabisbaixos. Excelente atriz. E Menashe Noy (Raiva) representa bem o tipo de "homem escroto" que trafega pelos ambientes de trabalho. Excelente ator, que faz o público passar raiva instantânea.

 

Tudo isso, claro, embalado por um bom trabalho da diretora Michal Aviad. Ela consegue fazer com que essa história se torne quase documental. Não há grandes arroubos de câmera, por exemplo, fazendo com que o espectador se sinta como parte daquele crime que se desenrola. Lembra um pouco a condução dos irmãos Dardenne, como em Dois Dias, Uma Noite. Retrato cru e dolorido de como o mercado de trabalho é hoje em dia. 

 

O mais interessante, ao fim, é a reflexão que o documentário deixa sobre as relações de trabalho. Como driblar isso? Como as mulheres podem sair de situações de abuso, sendo que muitas vezes não vão encontrar conforto em casa? E pior: com um chefe que, sendo uma pessoa influente, pode fazer com que a vida profissional dela se torne um inferno? É uma questão que precisa ser discutida e é importante que se coloque para a reflexão nas telonas. Um dia, quando alguém passar por um caso parecido com o de Orna, vai relembrar da história da israelense. E pode agir para mudar esse destino.

 

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