Crítica: 'Nico, 1988' é cinebiografia atraente e ousada, mas disfuncional

31/08/2018

Quando se pensa em cinebiografias de ícones do rock, logo associações surgem com drogas, sexo e muita música -- como é o caso, por exemplo, de Stoned,  A Fera do Rock Cazuza: O Tempo Não Para. No entanto, a cineasta italiana Susanna Nicchiarelli (Cosmonauta) resolveu ir por um caminho diferente. Para contar parte da vida de Nico, integrante da banda Velvet Underground, há muito experimentalismo, introspecção e delicadeza.

 

Nico, 1988 acompanha os últimos anos da vida da cantora, compositora, atriz e modelo que dá nome ao longa. Assim, as passagens da cantora pela Velvet Underground, a relação com Andy Warhol e as loucuras da juventude é apenas parte mínima dessa teia comandada por Nicchiarelli. O foco, aqui, é a busca de Nico em voltar a se encontrar, a se reconectar com família, com o filho. É algo mais introspectivo do que o esperado.

 

E, com isso, há pontos positivos e negativos. Mas primeiro vamos ao que agrada: com esse mergulho na mente e nos momentos derradeiros de Nico, o brilho do longa-metragem recai sobre a atuação precisa, impactante e explosiva da dinamarquesa Trine Dyrholm (Você Desapareceu). Ainda que se pareça muito pouco com a cantora, ela a encarna de maneira ímpar. A interpretação da My Heart is Empty é de arrepiar todos os fios de cabelo.

 

Além disso, é interessante o roteiro fragmentado escrito pela própria Nicchiarelli. É pouco usual, extremamente disfuncional, e de uma ousadia que compactua com toda a jornada de vida de Nico. É interessante ver suas nuances e seus experimentalismos, coisa que não é vista com frequência nas cinebiografias -- pelo contrário, já que estão cada vez mais formulaicas. É um sopro de criatividade e ousadia que ajuda a manter o longa

No entanto, como já sublinhado, há problemas em Nico, 1988. Por conta desse foco em alguns poucos anos da biografada, em alguns momentos fica quase insuportável assistir ao longa-metragem. Há pouco background sobre a história da cantora, exigindo um conhecimento prévio. Senão, ficam cenas jogadas à esmo e de difícil compreensão. Os 90 minutos de duração parecem se estender e não ter mais fim. Fica chatérrimo.

 

Falta, também, mostrar um pouco mais de coisas que explicassem algumas atitudes de Nico. Nada de didatismo. O que precisaria, e que ressaltamos aqui, são cenas nesse interessante emaranhado de situações que permitissem ao espectador fazer ligações, por si próprio, que desse sentido para algumas atitudes da protagonista. Um diálogo, uma memória. Qualquer coisa poderia produzir esse efeito e tornar o filme palatável.

 

Nico, 1988 é um bom capítulo na história das produções sobre grande figuras do rock'n'roll. É experimental, é ousado, é criativo, é dinâmico. No entanto, o longa-metragem acaba se perdendo em algumas de suas ambições e se torna mais apático do que deveria ser. Além, é claro, de ser pouquíssimo acessível para o grande público. Mas, aos fãs do gênero, de Nico e do Velvet Underground, é uma pérola no cinema de 2018.

 

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