Crítica: 'O Confeiteiro' é drama forte, mas pouco coeso

27/12/2018

A premissa de O Confeiteiro é interessantíssima. Oren (Roy Miller), um israelense que está em Berlim a trabalho, entra em uma confeitaria e pede um bolo para o dono do local, o jovem Tomas (Tim Kalkhof). Logo engatam uma conversa e que, tempos depois, vira romance. O grande problema aí está na origem do israelense, pai, casado com Hanna (Sarah Adler) e envolto numa cultura homofóbica e tradicional. Só que tudo vai por água abaixo quando ele morre atropelado. É o momento que Oren decide largar tudo e ir atrás das origens de seu grande amor -- até passando a conviver com Hanna.

 

Dirigido por Ofir Raul Graizer (Dor), O Confeiteiro é um filme forte, sensível e pouco usual -- características que o cinema do Oriente Médio, nos últimos anos, tem mostrado ser uma frequente. Sem grandes momentos ou exageros narrativos, a história vai sendo contada sem pressa. É, assim, um filme lento, contemplativo e que foca nas emoções e sentimentos do personagem principal. Quem gosta de cinema com muitos diálogos e exposição das situações, vai se decepcionar aqui. A maioria das conversas ocorrem nos olhares e nos silêncios. O que não é dito importa mais do que as frases verbalizadas.

 

Esse conflito de emoções, elevado à potência pelo diretor e por seus atores, é o grande ponto central do filme. Assim como O Insulto, O Apartamento A Separação, há um desenvolvimento complexo da personalidade dos personagens, que se tornam mais reais a cada cena, a cada sequência, a cada ato. Eles se desnudam na frente da tela, por mais difícil que seja a inclusão dessa transparência em suas vidas. O estreante Kalkhof faz um tipo mais irritante, mas que tem seus motivos. Miller aparece pouco, mas funciona. É Adler (Foxtrot) quem rouba a atenção, porém. Forte e determinada por fora, mas com um desequilíbrio emocional intenso por dentro. Grande atriz em cena.

Alguns temas, aos poucos, também vão ganhando mais força e importância frente à outros que, inicialmente, parecem ser os predominantes. A homossexualidade do personagem principal, por exemplo, se torna apenas um leve fio narrativo dentre os tantos dramas que Tomas passa a viver. O amor à família e às pessoas, sem importar gênero ou origem, acaba sendo o protagonista desses conflitos de emoções que saltam da tela. O amor desenfreado pela profissão e por pessoas que não mais estão aqui é outra temática que ganha força nas entrelinhas, já que o foco continua sendo a pessoa.

 

No entanto, falta coesão para o roteiro de Graizer. Muitas sequências acabam surgindo e desaparecendo sem grande importância narrativa e o filme, de certa forma, se torna arrastado. Falta, também, apego aos personagens. Por mais que sejam pessoas sofrendo, é preciso se identificar com seus atos e pensamentos. Ou, pelo menos, ter alguma empatia por eles. Oren, por exemplo, aparece muito pouco e o espectador não cria quase nenhum laço com o personagem. Quando surge o momento de emoção, então, parece que falta memória afetiva para que as cenas ganhem mais força fílmica.

 

Graizer, que faz sua estreia em longas, também tem algumas opções de linguagem visual que não agradam. Logo na primeira cena, quando Tomas e Oren se conhecem, parece que falta edição apurada -- a cena, que deveria ser simples e sensível, se torna arrastada e pouco coesa. É um problema que vai se alongando durante o filme, por mais que tenha seu impacto diminuído conforme a história avança. Falta experiência ao realizador, que com certeza teria algo melhor em mãos com mais tempo de trabalho.

 

Assim, O Confeiteiro é um filme delicado, sensível e que fala sobre temas importantes, como o amor sem fronteiras. No entanto, falta coesão e uma narrativa visual e textual um pouco mais "trabalhada". É, sem dúvidas, um bom filme, mas que não chega perto de outras pérolas audiovisuais que Oriente, nos últimos anos, tem presenteado durante a temporada de premiações. Belo filme, mas com problemas. Poderia ser bem melhor.

 

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