Crítica: ‘O Motorista de Táxi’ mostra força do cinema sul-coreano

15/01/2018

A Coreia do Sul vem marcando presença no cinema internacional de maneira insistente, sempre com bons filmes. Nos últimos anos foi possível ver longas como Lamento, Expresso do Amanhã e A Criada. Filmes diferentes e de grande impacto em que os assiste. Agora, mais uma produção entra na lista: o emocionante O Motorista de Táxi, longa que retrata a jornada de um jornalista e um taxista para gravar a Revolta Democrática na cidade de Gwangju, em 1980.

 

O protagonista, porém, não é o jornalista alemão que conseguiu gravar cenas abomináveis e que deixam qualquer um perplexo. Claro, seus feitos são mostrados e consagrados. É Kim Sa-bok (Song Kang-ho, espetacular), o motorista de táxi, que recebe toda a atenção do diretor Hun Jang. Viúvo e pai de uma pequena menina, ele aceita fazer a viagem de táxi com o jornalista para pagar uma dívida. Ele não imagina, porém, que a Revolta está mais violenta do dizem.

 

Assim, em Gwangju, Kim e o jornalista alemão (o razoável Thomas Kretschmann) enfrentam situações abomináveis de assassinato, violência policial e tortura. São cenas reproduzidas de maneira fiel e que causam uma forte sensação de impotência em quem assiste ao filme -- como no recente Detroit em Rebelião, de Bigelow. É tanta coisa absurda que você quer levantar da cadeira pra resolver as coisas. Um sentimento ruim, mas que só é causado por bons elementos do filme.

 

E os acertos são vários. A começar pela direção de Hun Jang. Dono de um currículo tímido e apenas com filmes para TV no histórico, o cineasta coreano mostrou imensa capacidade. Ainda que tenha dado uma ou outra derrapada na execução, como cenas exageradas ou hollywoodianas demais, o saldo é extremamente positivo. Toda reprodução de época beira o impecável e Jang, delicadamente, consegue incutir emoção na tela aos poucos, sem tornar o filme piegas.

Outro grande acerto é Song Kang-ho, que interpreta o motorista de táxi. É a alma do filme. Começa como um tipo palhaço, que adora fazer piadas com o estrangeiro, e aos poucos vai ganhando camadas profundas e consciência política. E tudo isso é visto em seu olhar e expressão, que vai mudando aos poucos. Assim, Song Kang-ho vai construindo a carreira mais promissora dos últimos anos -- ainda que ele já esteja na casa dos 50. Já é um astro mundial.

 

Além disso, o roteiro, escrito pelo estreante Yu-na Eom, vai direto ao ponto e faz um belo trabalho de desenvolvimento. Não é apressado, mas tem cortes cirúrgicos para deixar toda trama mais interessante e sem perder o ritmo. Destaque, também, para a capacidade que Eom tem em transitar por diferentes gêneros. Vai da comédia ao drama político sem ficar falso ou artificial. É bom ficar de olho em Yu-na Eom e em seus futuros trabalhos no cinema. Há potencial aí.

 

O final, ainda que tenha os exageros mencionados, pode levar muitas pessoas às lágrimas. As cenas reais gravadas pelo alemão também ajudam a dar o tom do filme, que abala as estruturas de quem o assiste pela proximidade dos acontecimentos. Agora, um relato bem pessoal: apesar de ter me segurado durante todo o filme, fui às lágrimas com uma notícia que li quando resolvi pesquisar informações sobre o filme. Se você fizer isso, vai saber do que estou falando.

 

O Motorista de Táxi é um filme delicado, real e brutal. Mostra momentos sombrios de nossa humanidade e a que ponto algumas pessoas podem chegar. É uma história que merece ser conhecida e contada -- ainda mais com uma direção, roteiro e atuação tão boa quanto a que foi vista por aqui. Entrou na minha lista de favoritos e mostrou que a Coreia do Sul é a mais nova meca do cinema. Se continuar assim, o futuro é ainda mais promissor. Só virão mais pérolas por aí.

 

 

 

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